Resolvemos
ouvir três especialistas para
explicar o que,
afinal de contas, é essa
âncora de distribuição
de ICMS
DANIEL LIMA
Valor
Adicionado, ou simplesmente VA.
Afinal, que bicho é esse,
comentado com frequência cada
vez maior? Valor Adicionado não
é exatamente algo fácil
de ser decifrado e muito menos explicado.
Por isso, estatísticos de
ocasião que pretendem doutrinar
versões sobre desenvolvimento
econômico em determinadas
regiões, de acordo com interesses
nem sempre bem claros, usam e abusam
da pseudo flexibilidade de Valor
Adicionado. Se fosse um bicho econômico
sem importância alguma, desses
que infestam a selva de tributos,
impostos e estatísticas brasileiras,
LIVRE MERCADO não perderia
tempo com o assunto. Mas não
é caso.
Valor
Adicionado pode parecer tema árido,
insosso até, mas faz parte
da vida de 170 milhões de
brasileiros. Particularmente no
Estado de São Paulo, de 38
milhões de habitantes. Sim,
porque é basicamente através
do Valor Adicionado que a Secretaria
da Fazenda paulista distribui os
recursos do ICMS (Imposto sobre
Circulação de Mercadorias
e Serviços). Como se sabe,
de todo o ICMS recolhido pelos cofres
estaduais, 25% são distribuídos
aos mais de 600 municípios.
Desse montante, isto é, dos
25% que competem aos municípios,
o Valor Adicionado influi com 76%
de peso relativo. Traduzindo: quem
mais gera Valor Adicionado, mais
recebe de ICMS. E ICMS, como se
sabe, é a maior fatia das
receitas das prefeituras, por mais
que essas mesmas prefeituras tenham
avançado sobre os bolsos
dos contribuintes nos últimos
anos com aumento de tributos próprios
como IPTU e ISS, numa operação
inspirada no próprio governo
estadual e federal. Não é
à toa que a carga tributária
do Brasil, de 34% em relação
ao PIB, é algo de Primeiro
Mundo, enquanto os serviços
públicos, todos sabem, estão
no Quinto Mundo.
Para
dissecar a importância do
Valor Adicionado, LIVRE MERCADO
reuniu, numa entrevista virtual,
três profissionais que se
têm dedicado ao assunto. As
perguntas -- iguais para todos --
foram enviadas através da
Internet. Nenhum deles teve acesso
às respostas dos demais,
o que tornou esta reportagem mais
interessante e conclusiva: Valor
Adicionado é mesmo complicado.
Mas valeu a pena desvendá-lo.
Acompanhem
essa tríplice entrevista
com o contador e professor universitário
Ary Silveira Bueno, diretor da ASPR
Consultoria e Auditoria de Santo
André; Ariovaldo dos Santos,
professor da FEA (Faculdade de Economia
e Administração e
Contabilidade) da USP (Universidade
de São Paulo) e pesquisador
da Fipecafi (Fundação
Instituto de Pesquisas Contábeis,
Atuariais e Financeiras), e o advogado
da área tributária
Alcides Gimenes.
LIVRE MERCADO -- Como o senhor traduziria
pedagogicamente o que é Valor
Adicionado?
Ariovaldo
dos Santos -- Valor Adicionado por
empresa representa sua parcela de
riqueza criada na economia. Essa
não é uma medida usualmente
utilizada pelos economistas, que
normalmente utilizam medidores mais
macros. A contabilidade está
oferecendo a possibilidade de fazer
essa medição de forma
mais micro. O Valor Adicionado pela
empresa, medido pela contabilidade,
representa a diferença entre
o valor de vendas e insumos consumidos.
Ary
Silveira Bueno -- O Valor Adicionado
descrito pela Lei Complementar 63
de 11 de janeiro de 1990, no seu
artigo 3, diz: o VA corresponderá,
para cada Município, ao valor
das mercadorias saídas, acrescido
do valor das prestações
de serviços no seu território,
deduzido o valor das mercadorias
entradas em cada ano civil. Portanto,
o VA está vinculado por lei
às empresas industriais e
comerciais de cada cidade. Se VA
é o total das saídas,
menos as entradas em valores em
reais, podemos ter um VA muito alto
sem gerar riquezas ou até
um VA menor, caindo, mas a riqueza
aumentar.
Portanto,
a margem de lucro e os tributos
embutidos nos valores das saídas
também fazem parte do VA.
Admitamos que, para produzir uma
caneta, uma indústria local
compre o plástico. Admitamos
ainda que a produção
está totalmente automatizada
em decorrência de processos,
equipamentos e robôs e que
isso tudo tenha sido adquirido em
outros locais, inclusive fora do
Brasil. Conclusão: o VA poderá
ser alto, pois será agregado
ao plástico adquirido todo
o custo das tecnologias adquiridas
em períodos anteriores. Entretanto,
a indústria terá que
pagar por essa tecnologia importada.
Isso nos levaria a afirmar que os
recursos financeiros não
permaneceriam na cidade sede dessa
hipotética indústria.
É
claro que um VA que não acompanhe
o ritmo de crescimento da economia
pode ensejar entendimento e interpretação
de desindustrialização
e empobrecimento, porque os tributos
estão cada vez mais altos,
as margens de lucro cada vez menores
e o custo do dinheiro está
elevadíssimo.
Alcides
Gimenes -- A expressão Valor
Adicionado a qual se refere a Constituição
Federal de 1988 no artigo 158, parágrafo
único, inciso I, para atender
ao disposto no inciso I, do artigo
161, foi definida pelo parágrafo
1º, do artigo 3º, da Lei
Complementar 63/90, como sendo o
valor das mercadorias saídas
acrescido do valor das prestações
de serviços no seu território,
deduzido do valor das mercadorias
entradas. Não são
todas as prestações
de serviço que compõem
o Valor Adicionado para os fins
previstos na Constituição
Federal, mas somente as que constituem
fatos geradores do ICMS, ou seja,
de transporte intermunicipal e interestadual
e de comunicações,
ficando explícito que a energia
elétrica é considerada
mercadoria.
A
Secretaria da Fazenda, por sua vez,
esclarece que o Valor Adicionado
corresponderá, para cada
Município, ao valor das mercadorias
saídas e dos serviços
de comunicação e transporte
prestados no seu território,
deduzido do valor das mercadorias
entradas e dos serviços de
transporte e de comunicação
adquiridos, em cada ano civil imediatamente
anterior ao da apuração.
LM -- O senhor recomendaria que
se estabelecesse juízo a
respeito da dinâmica industrial
de uma determinada região
levando em conta apenas o Valor
Adicionado? Não lhe parece
que o Valor Adicionado industrial
é frágil como ferramenta
de informação precisa
sobre o grau de desenvolvimento
de um determinado setor, inclusive
porque a própria distribuição
de ICMS (Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços)
está fortemente influenciada
pelo conjunto do Valor Adicionado,
que abarca as demais atividades
econômicas?
Ariovaldo
dos Santos -- Entendo que qualquer
medida utilizada isoladamente pode
não ser boa medida. Em contabilidade,
e também na economia, aprendemos
que índices, quocientes,
resultados, faturamento, tamanho
de ativos etc. não podem
ser olhados isoladamente. É
sempre mais importante ter-se a
visão do conjunto. Claro
que o Valor Adicionado, calculado
através das demonstrações
contábeis, não é
diferente. Esse é um novo
instrumental que a contabilidade
está oferecendo para a sociedade
e sua utilização vai
depender, inclusive, da alavancagem
que possa ser feita. Não
tenho qualquer dúvida de
que essa é a maior contribuição
que a contabilidade e os contadores
podem e devem oferecer à
sociedade.
Ary
Silveira Bueno -- O VA abrange todas
as atividades econômicas,
sem exceção, que tratem
de industrialização
e comercialização.
Claro que os serviços contratados
por uma indústria ou empresa
comercial comporão o VA.
O faturamento de uma empresa de
serviços não compõe
isoladamente o VA. Compõe,
sim, quando essa empresa de serviços
vende a uma empresa industrial ou
comercial que, por sua vez, informa
obrigatoriamente o valor das suas
saídas, nas quais estão
os serviços contratados.
O faturamento entre empresas de
serviços, com exceção
de poucos ramos de atividades, como
transporte, comunicação
e energia elétrica, não
compõe o VA de uma cidade.
Alcides
Gimenes -- Considerando-se que o
estabelecimento industrial, pela
sua natureza, exige maior parcela
de mão-de-obra e de outros
insumos que compõem o preço
do produto vendido e que o Valor
Adicionado convencional, em princípio,
é obtido pela diferença
entre o valor das saídas
e o valor das mercadorias entradas,
neste incluído os serviços
de transporte e de comunicação
adquiridos, com o acréscimo
do valor dos serviços de
comunicações e transporte
prestados, expressamente previstos
na legislação, é
possível afirmar que o estabelecimento
industrial é elemento preponderante
na obtenção do Valor
Adicionado.
Contudo,
não se pode perder de vista
que o índice para repasse
do ICMS leva em consideração
outras variáveis. Para a
apuração do Valor
Adicionado são utilizados
critérios desvinculados do
efetivo pagamento do ICMS no Município,
como é o caso das exportações
que, embora não tributadas,
compõem o Valor Adicionado.
O mesmo ocorre com as mercadorias
isentas. As operações
com energia elétrica e os
valores correspondentes aos serviços
de transporte e de comunicação
compõem o Valor Adicionado
do Município destinatário,
embora a obrigação
de pagar o imposto seja do estabelecimento
fornecedor ou prestador do serviço.
Também
o Regime de Substituição
Tributária influi na apuração
do índice. O volume de operações
praticadas por estabelecimentos
não-industriais, casos de
comércio, micro e pequenas
empresas, prestadores de serviços
inseridos na legislação
do ICMS, entre outros, pode influir
na obtenção do índice.
Operações não
denunciadas ou apuradas pelo Fisco,
nas condições fixadas,
devem compor as informações
destinadas a apurar o Valor Adicionado.
LM -- O dimensionamento do Valor
Adicionado como instrumento medidor
de riqueza deve ser analisado de
forma segmentada, isto é,
por setor de atividade, ou deve
abranger todos os segmentos? Trocando
em miúdos: o Valor Adicionado
industrial, comercial, agropecuário
e de serviços é um
conjunto harmonioso que deve ser
interpretado exatamente dessa forma?
O que acontece se o Valor Adicionado
for analisado apenas por um dos
segmentos?
Ariovaldo
dos Santos -- O Valor Adicionado
pode ser analisado de forma segmentada
ou global, dependendo do objetivo
que se pretenda dar para a análise.
Claro que a avaliação
global será sempre mais rica
e menos sujeita a viés, principalmente
se considerarmos que as demonstrações
oferecidas pela contabilidade nem
sempre têm esse detalhamento.
Por exemplo: se uma empresa como
a Petrobras, que sozinha produz
aproximadamente 2% de nosso PIB,
for analisada apenas pela região
de sua sede, estaremos cometendo
grandes equívocos.
Ary
Silveira Bueno -- O VA pode ser
analisado por segmentos, ou seja,
ramos de atividades distintos, seja
industrial, comercial, agropecuário
e os serviços sujeitos ao
ICMS já mencionados, casos
de transporte, comunicação
e energia elétrica. Uma análise
segmentada pode dar excelentes informações
para o estabelecimento de políticas
públicas e informações
extremamente úteis para o
meio empresarial. O VA da indústria
tende sempre a ser mais alto do
que o do setor comercial, mas se
for analisado isoladamente pode
dar distorção brutal.
Alcides
Gimenes -- Não é segredo
que os contribuintes são
codificados segundo a atividade
econômica -- CNAE --, não
só para definir os prazos
de pagamento, mas também
para aferir o comportamento de cada
setor, seja para fins de fiscalização
ou de análise econômica.
No que tange à apuração
do índice para repasse do
imposto arrecadado, a sistemática
vigente não exige qualquer
distinção e, portanto,
o Valor Adicionado engloba todos
os setores da economia. A análise
isolada de um segmento da cadeia
produtiva com indícios de
distorções pode gerar
ações do poder competente
visando corrigi-las, mas no caso
da distribuição do
ICMS, pelas características
das informações, a
análise só pode ser
feita no conjunto.
LM -- Com base no balanço
do Valor Adicionado do Estado de
São Paulo, definido pela
Secretaria da Fazenda, detectamos
que 60 municípios paulistas
detêm 82% do total do VA estadual.
O senhor acha que é arriscado
dizer que esses municípios
concentram a maior parte da riqueza
produtiva do Estado, considerando-se
também que há forte
conexão entre esses dados
e o ranking estadual do PIB produzido
pelo Ipea (Instituto de Pesquisas
Econômicas Aplicadas), do
Ministério do Planejamento?
Ariovaldo
dos Santos -- Acho que, como regra
geral, esses 60 municípios
são os principais responsáveis
pela geração da riqueza
do Estado. Claro que isso não
significa que nesses 60 municípios
nós encontraremos as pessoas
que têm os melhores níveis
de qualidade de vida. Um Município
tido como muito rico pode não
ter distribuição de
renda adequada e não propiciar
níveis de qualidade de vida
adequado.
Ary
Silveira Bueno -- Se há VA
alto, há um PIB crescente.
Sabendo que o Brasil é uma
das maiores economias do mundo,
onde estão presentes esses
dois indicadores, ali pode estar
a riqueza. Portanto, ter crescimento
de VA e do PIB, que não são
absolutamente diferentes, é
fundamental para uma cidade. Seria
interessante que, mesmo tendo queda
de VA, pudéssemos manter
ou aumentar a riqueza, mas isso
ficará cada vez mais difícil
com a competitividade global. Será
possível somente para quem
tiver produtos, mercadorias e serviços
únicos, o que depende de
investimentos em pesquisas, entre
outros fatores.
Um
dos grandes dramas das empresas
brasileiras é o altíssimo
custo tributário. Além
do problema da carga tributária
em si, há o enorme custo
da administração e
das brigas tributárias. Isso
tudo compõe o valor da produção
nacional e leva recursos para o
setor público que, como sabemos,
é muito mais ineficiente
do que o setor privado.
Alcides
Gimenes -- A reportagem publicada
pela revista LIVRE MERCADO Estadual
de setembro, com base nos dados
provisórios, mostra que 66
municípios contribuíram
com 82,66% do Valor Adicionado,
percentual que pode até ser
aumentado com os dados definitivos,
considerados os recursos deferidos.
Por isso, nossa visão é
de que efetivamente esses municípios
concentram a riqueza produtiva do
Estado.
LM -- O senhor poderia definir tecnicamente
o que vem a ser Valor Adicionado
Fiscal da Indústria?
Ariovaldo
dos Santos -- Os conceitos contábeis
e econômicos, nesse caso,
podem ter pequenas diferenças,
mas para nós o Valor Adicionado
Fiscal da Indústria representa
a base utilizada para o cálculo
dos impostos incidentes sobre a
produção.
Ary
Silveira Bueno -- O VA Fiscal da
Indústria consta do trabalho
apresentado no caderno 3 da Agência
de Desenvolvimento Econômico
do Grande ABC. Não deve considerar
o VA das empresas comerciais e dos
serviços sujeitos ao ICMS.
O VA convencional e completo é
calculado com a finalidade de propiciar
a obtenção do Índice
de Participação dos
Municípios na arrecadação
do ICMS, que é o principal
item da receita tributária
dos municípios brasileiros.
Alcides
Gimenes -- Encontramos o termo Valor
Adicionado Fiscal em decisão
prolatada pelo Colendo Superior
Tribunal de Justiça no ROMS
7707/MG, com relato do ministro
José Delgado, e não
difere a sua conclusão do
Valor Adicionado a que estamos nos
referindo. Nessa ótica, vale
a definição já
oferecida.
LM -- Qual é a influência
do Valor Adicionado na composição
do PIB (Produto Interno Bruto)?
Ariovaldo
dos Santos -- Na verdade, não
há influência do Valor
Adicionado sobre o PIB, até
porque a soma dos valores adicionados
pelos agentes econômicos,
eliminadas algumas duplas contagens,
será exatamente o PIB, só
que medido pela contabilidade e
não calculado através
de estimativas efetuadas pelos economistas.
LM -- Desculpe, mas não entendi
bem. Se a soma dos Valores Adicionados
será exatamente o PIB, descontadas
as duplas contagens, então
a influência do VA na quantificação
do Produto Interno Bruto é
intrínseca?
Ariovaldo
dos Santos -- Agora quem não
entendeu bem fui eu. Mas vou tentar
explicar: os economistas calculam
o PIB através de estimativas
de produção; os contadores
podem calcular o PIB através
das vendas efetivamente realizadas.
Para isso, o mecanismo que os contadores
utilizam é a Demonstração
do Valor Adicionado. Em outras palavras,
nossa demonstração
não afeta o PIB, apenas utiliza
uma forma diferente de medi-lo.
Ary
Silveira Bueno -- O VA é
um grande influenciador do PIB.
O PIB considera o valor de toda
a produção do Município,
ou seja, produtos, mercadorias e
todos os serviços e não
somente alguns, como acontece no
cálculo do VA. A diferença
básica e efetiva é
que o VA tem finalidade própria
definida que possibilita o cálculo
do Índice de Participação
dos Municípios.
Alcides
Gimenes -- O relatório do
IBGE que divulgou o PIB do segundo
trimestre de 2001 e que informa
a produção de bens
e serviços finais em valores
utiliza também a expressão
Valor Adicionado, que, entretanto,
difere do Valor Adicionado que é
utilizado para obtenção
do índice ao qual nos referimos
porque é mais abrangente
ao englobar todas as atividades
produtivas do País. Assim,
o Valor Adicionado relativo ao ICMS,
por ser parte do todo, ou seja,
do PIB, tem influência relativa
na obtenção dessa
informação.
LM -- Se uma região como
o Grande ABC apresenta queda nos
índices de repasse do ICMS,
perde na participação
do PIB, perde no Índice de
Potencial de Consumo ao longo dos
anos e também nos valores
absolutos e relativos do Valor Adicionado,
o senhor acha possível dizer
que, sendo essa região construída
sobre a fortaleza industrial, não
teria havido desindustrialização?
Ariovaldo
dos Santos -- Entendo que apenas
com essas informações
não dá para afirmar
que houve desindustrialização.
O que se pode afirmar é que
a região está produzindo
um menor Valor Adicionado e, portanto,
está menos rica, ou, se preferir,
mais pobre.
LM -- O que caracterizaria, então,
em linhas gerais, uma região
que tenha passado por desindustrialização?
E por industrialização?
Ariovaldo
dos Santos -- Os municípios
de São Bernardo e de Guarulhos
representam exemplos típicos
de regiões industrializadas.
O fato de algumas das empresas que
ali se localizaram em décadas
passadas terem encerrado suas atividades,
ou até mudado para outros
Estados, não significa que
tais municípios sejam hoje
desindustrializados. Esses conceitos
podem não ser muito claros
e dependerem de uma grande dosagem
de subjetivismo, dificultando a
identificação do divisor
de águas.
Ary
Silveira Bueno -- Poderia até
haver desindustrialização
sem diminuição da
riqueza, desde que as atividades
comerciais e de serviços
suprissem a tal queda da indústria.
Sabendo que as atividades comercial
e de serviços têm crescido,
sabendo que tem havido automação
industrial principalmente nas grandes
empresas e que, mesmo assim, todos
os indicadores caem -- como desemprego,
queda do IPM, queda do Índice
de Potencial de Consumo, perda de
participação no PIB,
aumento da carga tributária
que compõe o VA --, afirmamos
sem a menor sombra de dúvida
que a desindustrialização
é extremamente expressiva
no Grande ABC.
Alcides
Gimenes -- Não tenho dúvida
de que de fato houve desindustrialização
no Grande ABC, se é esse
o termo adequado para justificar
os prejuízos ocorridos. Não
posso falar sobre Mauá, mas
Santo André, em maior extensão,
Diadema, São Caetano e São
Bernardo perderam estabelecimentos
industriais de porte e esse fato
contribuiu negativamente na obtenção
de verbas pelas respectivas municipalidades.
LM -- Por falar em desindustrialização,
o senhor arriscaria dizer que uma
região não passou
por esse processo olhando única
e simplesmente para o balanço
do Valor Adicionado de um determinado
período e, mesmo assim, de
um Valor Adicionado exclusivamente
fiscal da área industrial?
A resposta está também
conectada ao fato de essa mesma
região, no caso o Grande
ABC, contabilizar mais de 125 mil
baixas de empregos formais em 10
anos, entre outras sequelas das
transformações geradas
principalmente pela globalização
e pela estabilidade da moeda.
Ariovaldo
dos Santos -- Uma das características
da Demonstração do
Valor Adicionado por empresa é
a possibilidade de se identificar
quem, quanto e como a riqueza está
sendo produzida e distribuída.
A riqueza de uma região pode
ser maior hoje do que era ontem,
mas isso não significa necessariamente
que os habitantes dessa região
estão melhorando seu padrão
de vida. Precisamos identificar
os beneficiários dessa riqueza
criada.
Ary
Silveira Bueno -- Esta é
uma boa pergunta e de fácil
resposta. Se o VA e o PIB se mantêm
às custas de importação
de tecnologias, principalmente estrangeiras,
poderia concluir que não
estaria empobrecendo, mas não
é verdade. Estaria se mantendo
os referidos VA e PIB, mas não
com recursos daqui, ou seja, mão-de-obra,
especializada ou não, mas
sim com automação
industrial, que precisa ser remunerada
a terceiros que aqui não
estão. Isso aconteceu e ainda
acontece em grande escala. Sentimos
isso na prática aqui no Grande
ABC.
Alcides
Gimenes -- Não me arriscaria,
porque efetivamente LIVRE MERCADO
detectou o maior componente que
justifica a queda nos índices
de participação dos
municípios do ABC no produto
da arrecadação do
ICMS no Estado de São Paulo.
Mas para justificar a queda específica
de Santo André, de 4,7% em
1977 para 1,55% em 2002, temos que
levar em conta algumas variáveis.O
Valor Adicionado puro foi utilizado
até 1981. A partir de 1982
passaram a ser considerados também
os fatores população,
receita própria e índice
fixo para todos os municípios.
A Lei 8.510/93, com vigência
a partir de 1º de janeiro de
1.994, fixou a apuração
com a aplicação dos
seguintes componentes: 76% com base
na relação percentual
entre o Valor Adicionado em cada
Município e o valor total
do Estado nos dois exercícios
anteriores ao da apuração;
13% com base no percentual entre
a população de cada
município e a população
atual do Estado; 5% com base no
percentual entre o valor da receita
tributária própria
de cada Município e a soma
da receita própria de todos
os municípios paulistas;
3% com base no percentual entre
a área cultivada de cada
Município e a área
cultivada total do Estado; 0,5%
em relação a reservatórios
de águas e 0,5% sobre áreas
de mananciais.
Foi
determinado um fator fixo de 2%
para aplicação indistinta
a todos os 645 municípios
do Estado. Essa providência
garante repasse melhor para pequenos
municípios que poderia, muito
bem, ser elevado para 3% sem grandes
prejuízos para os maiores
municípios. O desequilíbrio
existente não decorre somente
da guerra fiscal entre municípios,
mas preponderantemente das alterações
introduzidas pela Constituição
Federal de 1988 que, ao transformar
o ICM em ICMS, trouxe novos fatos
geradores desse imposto que anteriormente
se submetiam à legislação
federal (impostos únicos
sobre minerais, lubrificantes e
combustíveis e energia elétrica
e sobre serviços de transporte
e de comunicações).
Essa mudança constitucional
beneficiou alguns municípios
e Santo André foi grandemente
prejudicado.
LM -- Senhor Ariovaldo: se o conjunto
que define o Valor Adicionado conceitualmente
utilizado pela Secretaria da Fazenda
do Estado não oferece tanta
segurança de informações,
o senhor diria então que
ao estabelecer o peso relativo de
76% na distribuição
do ICMS o governo do Estado estaria
aplicando um instrumento eventualmente
enviesado? O senhor teria alguma
proposta para introduzir no processo
de redistribuição
do ICMS?
Ariovaldo
dos Santos -- Claro que não
tenho nenhuma proposta pronta e
acabada para uma nova redistribuição
do ICMS, mas não tenho nenhuma
dúvida de que o novo instrumental
que a contabilidade está
dispondo para o mercado será
de grande valia para estudos futuros.
O importante é que tanto
a DVA quanto os demais instrumentos
utilizados até agora possam
auxiliar nas decisões que
de alguma forma melhorarão
a vida das pessoas.
LM -- O que é desindustrialização
ou processo de desindustrialização?
No caso específico de São
Bernardo, que perdeu 27% de Valor
Adicionado entre 1994 e 2000, conforme
dados oficiais da Secretaria da
Fazenda do Estado, e levando-se
em conta que o Valor Adicionado
de São Bernardo é
fortemente influenciado pela atividade
industrial, isso não significa
que vive processo de desindustrialização?
Trocando em miúdos: não
sofre de desindustrialização
somente quem é industrializado?
E não passa por industrialização
somente quem tem baixo volume de
industrialização?
Ariovaldo
dos Santos -- Não sei como
a Secretaria da Fazenda fez esses
cálculos, mas, por exemplo,
se for apenas com a redução
do ICMS recolhido aos cofres públicos,
isso não significa necessariamente
redução do volume
industrializado. Por exemplo, uma
atividade que era tributada e passa
a ser isenta ou tem redução
de alíquotas poderá
diminuir a arrecadação
e isso não indica uma redução
da atividade industrial. Isso não
significa dizer que, mais especificamente,
o município de São
Bernardo não tenha diminuído
sua participação no
Produto Industrial do Estado ou
do País; o que quero dizer
é que não reuno informações
suficientes para tal conclusão.
No que se refere a segunda parte
da pergunta, quer me parecer que
sua colocação é
correta.
Ary
Silveira Bueno -- Uma indústria,
até pelo conceito legal tributário,
industrializa, transforma. Portanto,
é indiferente que a produção
seja automatizada ou não.
O problema é que se usar
mão-de-obra local em quantidade,
o resultado é um, mas se
usar processos tecnológicos
modernos, que muitas vezes são
importados, o resultado é
completamente diferente. A riqueza
vai para o espaço, ou melhor,
vai para o Exterior. Por isso que
a solução é
a capacitação dos
profissionais, investimentos em
pesquisa, entre outras ações.
Alcides
Gimenes -- Segundo a versão
atualizada do Dicionário
de Aurélio Buarque de Holanda,
desindustrialização
é o desaparecimento de empresas
ou setores industriais devido à
concorrência externa e/ou
a redução da participação
da indústria no Produto Interno
Bruto. Poderíamos interpretar,
então, como uma perda total
ou parcial de estabelecimentos industriais.
A perda de São Bernardo no
Valor Adicionado entre as operações
efetivadas em 1993 e 2000 foi de
18,13%. Essa análise indica
que efetivamente houve perda de
produção industrial
e que essa perda, pelo conhecimento
empírico, pode ser justificada
como perda de estabelecimentos industriais
ou desindustrialização.
LM -- Diante de dois exemplos que
lhe apresentamos, o senhor diria
que se configuram os respectivos
processos de desindustrialização
e de industrialização?
O primeiro é o seguinte:
o Grande ABC perdeu 32,7% entre
1980 e 2000 de participação
no Valor Adicionado do Estado, calculado
pela Secretaria da Fazenda do Estado.
Esse resultado, além de relativo,
também se deu no volume monetário
do VA. Por outro lado, os 19 principais
municípios da Região
Administrativa de Campinas cresceram,
no mesmo período, de 8,23%
para 16%. Considerando-se, ainda,
segundo estudos oficiais com base
em dados do IBGE, que a Região
Metropolitana de São Paulo
perdeu participação
na produção industrial
do País de 44% em 1970 para
26% em 1999, configura-se ou não
um quadro de desindustrialização,
que alguns pesquisadores preferem
chamar de descentralização?
Ariovaldo
dos Santos -- Volto a afirmar que
não possuo dados suficientes
para uma análise tão
detalhada. As mudanças de
participações são
expressivas, mas isso só
é insuficiente para uma análise
mais detalhada. Vamos imaginar a
seguinte situação:
determinado Município produz
apenas carros populares num país
que não produz carros de
luxo. Isso significa que 100% dos
carros do país são
produzidos naquele Município.
Se esse país, em um outro
Município, passar a produzir
carros de luxo em quantidades cinco
vezes maiores que a de carros populares,
o que acontecerá? Claro,
a resposta é óbvia,
a participação daquele
primeiro Município na produção
geral de carros cairá, mas
isso não significa que esteja
produzindo menor quantidade de carros
populares. Aliás, você
poderá até ter tido
um aumento da produção
individual de carros populares,
mesmo que não seja mais o
responsável por 100% dessa
produção industrial.
Ary
Silveira Bueno -- A desindustrialização
do Grande ABC é inegável
em função de todos
os indicadores que acompanhamos
nos últimos anos. Outra constatação
é a melhoria de indicadores
de outras regiões do Estado
de São Paulo. A descentralização
tem havido sim, da região
do ABC para outras regiões
do Estado.
Alcides
Gimenes -- Pelos meus controles
atualizados, o Grande ABC perdeu
70,32% nos índices de participação
dos municípios no Produto
da Arrecadação do
ICMS no período considerado
(14,12% contra 8,29%). Isso indica
perda de Valor Adicionado, perda
de população e perda
de receita própria, enquanto
a região de Campinas, ao
que consta, teria apresentado progresso
em relação a essas
variáveis.
Adicionando
a informação obtida
no IBGE e o conhecimento empírico
dos fatos, posso afirmar que efetivamente
ocorreu perda de produção
industrial na região do ABC,
justificada pela cessação
ou redução das atividades
de estabelecimentos industriais
sem reposição correspondente.
A exposição revela
que o ABC sofreu processo de desindustrialização
que refletiu na arrecadação
do ICMS e, consequentemente, diminuiu
a receita tributária dos
municípios porque o produto
desse imposto, classificado na rubrica
Transferências Correntes do
Relatório de Execução
Orçamentária (LRF),
é a maior fonte das receitas
municipais.
Não
basta essa constatação.
É preciso buscar as causas
da desindustrialização
para aplicar o remédio correto.
Não se pode esquecer, porém,
que outras variáveis influem
na apuração do índice
e que existem distorções
que podem ser corrigidas, em parte,
por atos administrativos, enquanto
a problemática não
for resolvida por mudanças
legislativas adequadas.