Pergunta
-- O que é, afinal, regionalidade?
Daniel Lima -- Diferentemente
do que imaginam os leigos ou mesmo especialistas
tupiniquins, regionalidade é um
conjunto amplo de informação
e de análise que transcende determinado
Município ou determinada região,
por mais que o foco regional esteja centralmente
voltado para determinado ponto. Regionalidade
é ir a fundo num determinado território
geográfico sem deixar escapar implicações
nacionais e internacionais que atingem
esse mesmo território nos mais
diferentes campos de informação
econômica, financeira, social e
gerencial, tanto pública quanto
privada. Regionalidade não é
a cauda localizada da globalização,
como alguns tentam vender. Regionalidade
é a essência da globalização.
Globalização é a
soma de regionalidades, é o corpo,
a alma e o espírito. É impossível
discutir indústria automotiva ou
indústria químico-petroquímica
do Grande ABC, setores mais importantes
da região, sem olhar o quadro global.
Os asiáticos são nossos
concorrentes, gostem ou não os
claustrofóbicos municipalistas.
O sistema financeiro nos embala e nos
abala no ritmo dos acontecimentos. A bolha
imobiliária nos Estados Unidos
é sinal de alerta para todos nós.
Pergunta
-- Quanto tempo LivreMercado
dedica-se à regionalidade?
Daniel Lima -- Completaremos
18 anos de circulação em
março de 2008. Lançamos
a revista em plena turbulência do
Plano Collor; no momento em que o Grande
ABC, agora com 2,5 milhões de habitantes,
iniciava o período mais complicado
de sua existência, com forte desindustrialização.
E tudo isso foi acompanhado de perto pela
revista em tom ácido sim, preocupado
sim, inquieto sim. Outros preferiram a
mentira adocicada de um triunfalismo autofágico
e deformador da realidade.
Pergunta
-- Qual é a tiragem
de LivreMercado?
Daniel Lima -- Comprovadamente,
em média, de 35 mil a 45 mil exemplares
por edição, que é
mensal. Muito mais, mas muito mais mesmo
que qualquer outra publicação
não diária e mesmo diária
do Grande ABC. E também maior que
o número de exemplares da revista
nacional recordista de tiragem no País,
cuja circulação na região
está limitada a 15 mil assinantes.
O importante mesmo é que jamais
transformamos tiragem em carro-chefe de
preocupações. As melhores
publicações que circulam
no mundo necessariamente não são
as de maior tiragem. Se for considerado
o PIB (Produto Interno Bruto) econômico
e intelectual do Grande ABC, nossa audiência
é arrasadora.
Pergunta
-- Onde circula LivreMercado?
Daniel Lima -- Desde
que a publicação se tornou
independente também na área
de distribuição, optamos
por entregar exemplares nos bairros de
classe média dos sete municípios
do Grande ABC. São famílias
mais escolarizadas e com rendimentos superiores.
Ou seja: são pessoas potencialmente
com maior poder aquisitivo, com capacidade
superior de consumir e também habilitadas
a compreender com mais facilidade os objetivos
editoriais da publicação,
alinhando-se na defesa de um guarda-chuva
de propostas que visam a dar mais força
coletiva e de representação
do Grande ABC.
Pergunta
-- O que significa independência
na distribuição?
Daniel Lima -- Durante
muitos anos de parceria societária
com o Diário do Grande ABC, LivreMercado
foi encartada naquele jornal. Tudo terminou
no dia em que o Diário do Grande
ABC, por rusga administrativa, decidiu
não encartar mais a revista. Fizemos
do limão limonada. Passamos a ter
controle dos destinatários da revista.
Passamos a circular maciçamente
na classe média da região.
A periferia-periferia não entende
a linha editorial de LivreMercado, com
as exceções de praxe. Aliás,
a periferia-periferia não entende
também a linha editorial de Exame,
de Veja, de CartaCapital. Entende a linha
editorial do Diário do Grande ABC,
do Diário de São Paulo e
de outros jornais populares. O que parecia
problema, se transformou em presente.
Aproximamos LivreMercado de leitores mais
sensíveis à linha editorial.
Pergunta
-- Isso não significa
que LivreMercado é elitista?
Daniel Lima -- De forma
alguma. Também colocamos as edições
à disposição de populações
menos qualificadas em escolaridade e rendimentos,
mas cujos representantes são lideranças
importantes.
Pergunta
-- O fato de ser uma publicação
mensal não torna LivreMercado veículo
de circulação problemática,
com baixa capacidade de defender pontos
relevantes da comunidade?
Daniel Lima -- Pelo contrário.
Exatamente por circular a cada 30 dias,
LivreMercado se especializou em traduzir
e em avançar muitos pontos do noticiário
diário ou semanal, que se repete
sem profundidade e reflexão na
mídia de periodicidade mais acelerada,
principalmente porque esses veículos
vendem a idéia marota de que as
notícias devem ser breves. Idéia
marota porque os jornais diários
caíram brutalmente de qualidade
e passaram a usar a mediocridade geral
de informações como elemento
supostamente estratégico de proximidade
com os leitores, subestimando os mais
exigentes e se entregando de corpo e alma
aos superficiais.
Pergunta
-- O que as Reportagens de
Capa de LivreMercado significam?
Daniel Lima -- As Reportagens
de Capa de LivreMercado simbolizam e estratificam
o cuidado para tornar a revista sempre
e sempre investigativa, profunda e analítica,
com reflexos sobre as demais matérias
de cada edição. É
nossa vitrine muito bem cuidada e que
por isso mesmo torna obrigatório
o conteúdo interno em todas as
páginas. Sem correr risco, garantimos
que LivreMercado tem a fórmula
ideal para quem quer conhecer mais detidamente
o que se passa no Grande ABC, sempre tendo
como pano de fundo aspectos macroeconômicos
e macrossociais de um mundo que se globalizou.
Os veículos diários deveriam
fazer valer a intensidade da periodicidade
e mobilizar a comunidade em torno de questões
substantivas para o conjunto da população,
não apenas para determinados pontos
geográficos. Aos veículos
de circulação não
diária deve prevalecer a reflexão
também conectada com os anseios
de todos. Cumprimos muito bem nossa tarefa.
Pergunta
-- Quais são os pontos
mais marcantes da linha editorial de LivreMercado?
Daniel Lima -- A análise
do quadro conjuntural e estrutural do
Grande ABC é um dos maiores patrimônios
de LivreMercado, contrapondo-se com independência
e isenção a um quadro de
triunfalismo irresponsável de boa
parte da Imprensa regional. Além
disso, nossos olhos e corações
estão voltados para os excluídos
sociais, para a cultura, para os cases
empresariais, para os pequenos negócios.
O Prêmio Desempenho, espécie
de LivreMercado no palco, reflete tudo
isso.
Pergunta
-- Há matérias
pagas em LivreMercado?
Daniel Lima -- De forma
alguma. LivreMercado se considera na obrigação
de apresentar aos leitores os pontos positivos
e negativos do Grande ABC. Quem se apresentar
com qualquer proposta que fuja da responsabilidade
social da publicação deve
ser denunciado. Assumimos a possibilidade
de acertos e erros, sem delegar informações
e análises a terceiros eventualmente
interessados em romper a linha demarcatória
de ética. A força motriz
econômica de LivreMercado é
o quadro de anunciantes, como a maioria
dos veículos de comunicação.
E nossos anunciantes sabem que só
terão valor se compreenderem a
publicação como reserva
de ética e moralidade do Grande
ABC. Aliás, o fato de não
sermos dependentes de um determinado anunciante,
ou do conjunto de determinados anunciantes,
já que nosso portfólio é
amplo e diversificado, nos torna menos
suscetíveis a contratempos de ordem
editorial.
Pergunta
-- LivreMercado só
produz matérias com anunciantes?
Daniel Lima -- A Redação
trabalha com pauta jornalística
sempre. São inúmeros os
casos de matérias cujos protagonistas
jamais anunciaram em LivreMercado. E também
de protagonistas de matérias de
LivreMercado que, depois do trabalho publicado,
resolveram adotar políticas de
marketing que contemplassem a revista,
porque a repercussão lhes mostrou
o quanto jogaram fora recursos por desconsiderarem
essa alternativa de investimento publicitário.
Quem vender a idéia de que LivreMercado
só contempla anunciantes está
usando de má-fé e deve ser
denunciado à direção
da empresa. Basta uma leitura atenta de
LivreMercado para observar imenso caudal
de matérias sem qualquer vinculação
mercantil, embora originariamente a publicação
tenha sido dirigida aos empreendedores
e, ainda, este seja o nosso filão
editorial.
Pergunta
-- Ainda há preconceito
em relação a LivreMercado,
principalmente de anunciantes acostumados
com o jornalismo diário?
Daniel Lima -- Não
chamaria de preconceito. Preferiria dizer
que se trata de algo resultante de desconhecimento
por conta de vícios culturais.
Há muitos empresários que
se deixam levar por determinados quesitos
de aferição de audiência
de veículo impresso. Audiência
nesse caso significa tiragem. Entendemos
que tiragem não diz tudo. Mais
que isso: muitas vezes, a tiragem além
de ficcional é apenas um detalhe,
porque o produto não reúne
qualidades editoriais para sustentar leitura
transformadora e, portanto, agregadora
de valor. LivreMercado é uma revista
para ser lida pelo menos duramente o mês
inteiro, até que a próxima
edição esteja à mão.
Isso significa durabilidade física
e editorial.
Pergunta
-- O que significa leitura
transformadora?
Daniel Lima -- Um veículo
de comunicação sem compromisso
com a comunidade, repassando-lhe série
de informações e análises
que a faça respirar aliviada ou
preocupada, não é um veículo
de comunicação que deva
ser visto com confiança. LivreMercado
jamais se preocupou em aliar-se aos vendedores
de ilusão. Muito pelo contrário:
jamais nos descuidamos do combate aos
ufanistas, aos triunfalistas, àqueles
que esconderam e ainda procuram esconder
a crise mais virulenta que uma região
já viveu no País, como foi
o caso do Grande ABC dos anos 1990, quando
perdemos 100 mil empregos industriais
com carteira assinada e vimos nosso PIB
industrial cair quase 40% em termos reais.
Nos últimos tempos LivreMercado
tem registrado certa recuperação
da economia da região, mas ainda
não caímos na gandaia de
que está tudo resolvido. Muito
pelo contrário. Precisamente de
sustentabilidade para minimizar mais de
uma década e meia de desarranjos.
Pergunta
-- Que sugestão faria
aos leitores de jornais e revistas?
Daniel Lima -- Que sejam
exigentes, que cobrem responsabilidade,
que questionem, que não dêem
trégua. Que exerçam cidadania.
Mas que não se esqueçam
de, também, reunir aparato informativo
para contrapor-se às publicações.
Oposição por oposição
é bobagem. Oposição
eivada de partidarismo político
também não serve como ferramenta
de mudanças, porque a política
costuma turvar os sentidos.
Pergunta
-- LivreMercado está
pronta para esse tipo de embate?
Daniel Lima -- Para isso
e muito mais. Não temos medo de
nosso passado. Pelo contrário:
temos orgulho do que já fizemos,
mesmo contra a corrente dos interesseiros.
Somos uma revista de personalidade editorial.
Não somos uma maria-vai-com-as-outras,
ou uma maria-vai-com-quem-interessa-ir.
Não fazemos de nossas páginas
desfile de beldades, de celebridades,
de fofocas. Costumo dizer que LivreMercado
é feita para quem tem cérebro.
Alguns podem achar a frase presunçosa,
mas não é. Nós respeitamos
demais os leitores. LivreMercado forma
opinião, tem credibilidade, é
polêmica na dose certa e não
tem medo de cara feia de nenhum poderoso
de plantão.
Pergunta
-- LivreMercado é
uma das raras publicações
brasileiras que conta com Conselho Editorial.
O que significa isso?
Daniel Lima -- Temos
mais de 250 profissionais das mais diferentes
áreas que atuam em cooperação
com a revista. Os conselheiros atuam mais
diretamente na análise dos cases
que constam do Prêmio Desempenho,
um dos produtos de LivreMercado. Realizamos
permanentes sondagens temáticas
com o quadro de conselheiros. Queremos
saber exatamente o que cada integrante
e o conjunto pensam do produto. Não
temos a obrigação de seguir
cegamente as deliberações
dos conselheiros. Nossa estrutura editorial
está consolidada numa espécie
de Carta Magna, mas, sem dúvida,
registramos cuidadosamente as tendências
expostas e, com isso, dentro da imperiosidade
estratégica, introduzimos modificações
editoriais. Geralmente o que temos como
resultado é a convergência
tácita da linha editorial e do
pensamento médio dos conselheiros
editoriais. Eles simbolizam nossos leitores
e por isso mesmo precisam ser vistos com
todo carinho e respeito. Outras publicações
não seguem esse figurino porque
não são transparentes, não
têm de fato compromissos com os
leitores, embora alardeiem o contrário.