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Nem o Grande ABC nem o Brasil
que chorou
pelo prefeito sabem o quanto ele realizou
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O
assassinato do prefeito Celso
Daniel, do PT de Santo André,
entre a noite de 19 e a madrugada
de 20 de janeiro, entra para a
história do Grande ABC
como símbolo nacional de
consternação pela
perda de um político eleito
pela terceira vez para o comando
do Município. A tragédia
que abalou o Brasil e colocou
mais uma vez o Grande ABC na liderança
de audiência de programas
movidos a sangue, choro e revolta
também instalou a sucessão
estadual e a sucessão presidencial
no radar de escaramuças
partidárias que ultrapassaram
todos os limites de oportunismo.
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O sequestro encerrado com violência
infiltra-se no âmago da debilidade
estrutural da segurança pública
porque coroou uma série de acontecimentos
que não deixam dúvidas sobre
a sinistra combinação de
desenvolvimento econômico em estado
quase vegetativo e embicamento da qualidade
de vida, principalmente nas regiões
metropolitanas.
O maior dos legados deixados por Celso
Daniel foi valorizado por quase ninguém
durante todos os dias de turbulências
que começaram com o sequestro,
aumentaram com o assassinato e ganharam
formas ainda mais profundas com seu
sepultamento e a série de versões
que envolveram o crime.
Celso Daniel foi o prefeito mais importante
em toda a história político-administrava
da região por simples e lógica
justificativa: ninguém na esfera
pública pensou a regionalidade
do Grande ABC como ele nem dispunha
de arcabouço teórico tão
variado e denso.

Depois que o corpo de Celso Daniel foi
encontrado no chão de terra batida
de Juquitiba, na Grande São Paulo,
e desceu à terra fresca do túmulo
do Cemitério da Saudade, na Vila
Assunção, em Santo André,
em intervalo de pouco mais de 36 horas
que comoveu o Brasil e parece mudar
as relações institucionais
entre o combativo Partido dos Trabalhadores
e o governo federal, a maior reverência
que o Grande ABC poderá prestar-lhe
é não esquecer a herança
de responsabilidade regional que o prefeito
destilou pioneiramente na área
pública.
O engenheiro e professor de Economia
Celso Daniel foi homem com visão
de futuro num Grande ABC que insiste
em olhar pelo retrovisor. É fato
que tinha estilo próprio de inquietar-se
com o horizonte regional. Não
admitia publicamente, em momento algum,
que particularmente sua Santo André
era o maior exemplo de imprevidência
administrativa dos antecessores. Também
não admitia que demorou para
se aperceber do empobrecimento da cidade
que o viu nascer e que transformou seu
pai, Bruno José Daniel, vereador,
presidente da Câmara e secretário
municipal.
Dissimular
preocupação com o histórico
quadro de empobrecimento socioeconômico
regional era a forma de Celso Daniel
amenizar em público o que o atormentava
reservadamente. Sim, ele se entregava
aos questionamentos com seus botões
ou com secretários municipais
mais próximos no gabinete de
trabalho. Já o apartamento despojado
de classe média, sem computador
e outros equipamentos eletrônicos,
era geralmente refúgio de leitura
e de um assíduo espectador de
filmes clássicos de Ingmar Bergman,
entre outros cineastas consagrados.
Celso
Daniel reunia amplo conhecimento de
que o Grande ABC mudou demais nos últimos
10 anos. A abertura econômica
desenfreada, o fim da espiral inflacionária,
a sobrevalorização do
dólar durante os primeiros anos
do Plano Real -- essas novas regras
de um mundo globalizado colocaram o
Grande ABC em transe. Sobretudo a indústria
automotiva, que responde por grande
parte do PIB regional e que é
a atividade mais competitiva do mundo,
atormentava Celso Daniel porque não
parava de enxugar estruturas, recursos
humanos, investir em tecnologia e em
plantas fora do Grande ABC. Mesmo sem
montadoras de veículos, Santo
André sofria com o esquartejamento
do parque fornecedor de autopeças,
de capital familiar na maioria dos casos.
Seria
bobagem esperar que Celso Daniel denunciasse
tudo isso publicamente e que se juntasse
aos poucos que, por não serem
políticos, por não terem
compromissos partidários, por
serem mais agressivos, por quaisquer
que fossem as razões, decidiram
revelar os rombos que as mudanças
econômicas operavam num transatlântico
então envolto em mares calmos.
No fundo, no fundo, Celso Daniel temia
ser mal interpretado e acusado de agente
oficial do desestímulo a investimentos
privados na região. Também
evitava, com isso, dar corda aos exagerados
que alçam o movimento sindical
cutista à condição
de algoz do capitalismo regional.
O
comportamento do prefeito era outro
quando tratava de esvaziamento econômico
do Grande ABC e da necessidade de afastar
o Complexo de Gata Borralheira das entranhas
da região. A grandiosidade e
a centralidade da vizinha São
Paulo, que frequentava com assiduidade
de professor da Fundação
Getúlio Vargas e da PUC, encantavam
Celso Daniel mas não o tornavam
necessariamente um deslocado representante
da província regional. Tanto
que procurava inspirar-se na maior metrópole
do Hemisfério Sul para produzir
uma Santo André mais cosmopolita
sem que isso transpirasse colonialismo
e a confirmação do Complexo
de Gata Borralheira. Celso Daniel tinha
amor próprio municipal e regional
suficiente para dar ares de equivalência
à Capital nos projetos e programas
sociais e econômicos.
Durante
11 anos, de 1990 a 2000, Celso Daniel
lançou-se à regionalidade
com sofreguidão. Entre o primeiro
mandato de prefeito e o quarto ano da
segunda gestão, foi um raro caso
de administrador municipal envolvido
com a liderança doutrinária
e operacional da integração
regional. Perguntem quem liderou a construção
do Consórcio Intermunicipal de
Prefeitos, em 1991, e receberão
como resposta o nome de Celso Daniel.
Ele comandou o movimento que Luiz Tortorello,
Maurício Soares e José
de Filippi Júnior, também
prefeitos nos últimos cinco anos,
seguiram com empenho. Principalmente
os dois últimos.
Quando
terminou sua primeira gestão,
Celso Daniel virou deputado federal.
Enquanto isso, os prefeitos eleitos
em 1992 praticamente desativaram o Consórcio
Intermunicipal. Newton Brandão,
Walter Demarchi, José Augusto
da Silva Ramos, Leonel Damo, Antonio
Dall'Anese e Valdírio Prisco
voltaram ao jogo municipalista que conferiu
à história política
do Grande ABC o sentido de isolamento
de doenças contagiosas. Cada
novo prefeito tratou de cuidar de interesses
limitados ao respectivo território,
como se economia, cultura, agentes sociais
e atividades políticas devessem
obedecer rigidamente o traçado
do mapa construído pela série
de emancipações nos anos
50 e 60.
A
trajetória inicial de Celso Daniel
multimunicipal contribui para entender
por que tantas figurinhas carimbadas,
principalmente do Partido dos Trabalhadores,
tomaram o Paço de Santo André
no sábado 19 de janeiro, quando
houve a divulgação do
sequestro. Celso Daniel rompeu as fronteiras
provinciais de Santo André e
do Grande ABC muito antes de ser convidado
por Lula da Silva a coordenar o programa
presidencial de governo do PT, inclusive
como professor da FGV. Tivesse se enclausurado
nos guetos municipais, como tantos outros
administradores públicos da região,
não teria colaboração
alguma a dar no plano nacional.
O
olhar prospectivo de regionalidade provavelmente
seria uma das marcas de Celso Daniel
como futuro ministro de Indústria
e Comércio, posto que lhe estaria
reservado no organograma petista. Sim,
um ministério de ação,
de envolvimento com as forças
produtivas. O Ministério do Planejamento,
também sugerido, recomendaria
um perfil fortemente de coordenação,
característica que o prefeito
também dominava.
Celso
Daniel saltou para a agenda nacional
do PT e elaborou o plano de governo
de Lula da Silva, apresentado no final
do ano passado em Recife, Pernambuco.
O congresso consagrou seu nome no partido
frente a representantes mais ortodoxos
que insistem em hostilizar o capital.
O então prefeito de Santo André
soube neutralizar as forças mais
reacionárias do partido. Utilizou
para isso o poder de sedução
de quem cultivava o diálogo e
de quem construía argumentos
com extrema coerência. Saiu de
Recife com a cabeça coroada.
Se
Celso Daniel não tivesse erguido
no Grande ABC sua plataforma de aspirante
a estadista, provavelmente não
teria rompido os grilhões do
intrincadíssimo jogo político-partidário
das agremiações líderes
de representatividade. Jamais teria,
também, se tornado unanimidade
na cúpula petista que, em reconhecimento,
compareceu em peso ao centro nervoso
da catarse de janeiro, no Paço
Municipal de Santo André.
O
prefeito que Santo André elegeu
por três vezes, sempre lhe oferecendo
mais e mais votos, só retornou
à Prefeitura pela segunda vez
em 1997. A semente da regionalidade
integracionista plantada no começo
da década e o retrocesso dos
prefeitos que sucederam os vencedores
das eleições de 1988 associaram-se
como eventos conflitivos para as esperanças
de um Grande ABC socioeconômico
menos vulnerável na virada do
milênio.
Após
provar o doce da unidade regional que
levava a crer que o Grande ABC não
seria mais uma metáfora e também
depois de sentir o fel do refluxo paroquial,
era evidente que a institucionalidade
da região não morreria
de inanição, antes mesmo
que Celso Daniel reocupasse o Paço.
A
reconquista da regionalidade mobilizou
as elites de entidades empresariais,
sindicais e sociais num movimento de
mobilização para elevar
o quociente político do Grande
ABC na Assembléia Legislativa
e na Câmara Federal. Foi assim
que se fundou o Fórum da Cidadania,
em 1994. Quando os prefeitos eleitos
em 1992 deixaram os respectivos postos,
a sonhada metropolização
sustentada pelo Poder Público
estava na lona. Apenas o prefeito de
Ribeirão Pires, Valdírio
Prisco, aparecia no noticiário,
como presidente do Consórcio
Intermunicipal que mais lembrava um
náufrago em mar aberto.
De novo Celso Daniel voltou à
cena da regionalidade ao reocupar o
Paço de Santo André em
janeiro de 1997. Reencontrou pelas urnas
velhos parceiros de jornadas, casos
de Luiz Tortorello e Maurício
Soares. A eleição dos
petistas Oswaldo Dias e Maria Inês
Soares reforçou a musculatura
do PT e a potencialidade de sensibilização
regional. O ex-petista Gilson Menezes
voltava à Prefeitura de Diadema
e Rio Grande da Serra passou a viver
um rodízio funesto e controvertido
de prefeitos a partir da morte de Aparecido
Franco, vítima de enfarte.
O
Fórum da Cidadania vivia momentos
de glória. Tinha coordenação
articulada e conseguia estabelecer pauta
de debates que exigiram reação
respeitosa principalmente do governo
do Estado. Pressionada por lideranças
reunidas no Fórum e contando
com apoio do então secretário
estadual de Ciência, Tecnologia
e Desenvolvimento Econômico Emerson
Kapaz, a regionalidade dogmática
de Celso Daniel consolidou-se com a
constituição da Câmara
Regional do Grande ABC.
A
instituição, incentivada
também pelo governador Mário
Covas, foi a fórmula que o Grande
ABC encontrou para dar um drible na
Assembléia Legislativa. Como
a metropolização jurídica
do Grande ABC é uma eterna expectativa
que a Baixada Santista e a Grande Campinas
conseguiram materializar porque estão
fora do eixo da caótica Grande
São Paulo, a saída encontrada
foi a fundação da Câmara
Regional, um conglomerado de prefeitos,
deputados federais e estaduais, representações
empresariais, sindicais e sociais --
espécie de junção
do Consórcio de Prefeitos e Fórum
da Cidadania, além do governador
do Estado e de todo o secretariado.
A
Câmara Regional não era
o modelo institucional de metropolização
defendido por Celso Daniel. Ele sonhava
com participação mais
maciça da sociedade. Entretanto,
jamais deixou de participar ativamente
e de colocar secretários municipais
e assessores nos grupos temáticos
de estudos.
Decididamente
mais versado em políticas públicas
voltadas para o social, Celso Daniel
não se consagrou em nível
regional e mesmo municipal como administrador
de intensidade desejada nas atividades
econômicas. Mesmo assim, implementou
a importância do desenvolvimento
econômico sustentado de forma
superior a seus contemporâneos
e antecessores.
O
exemplo mais emblemático de que
Celso Daniel não desprezava a
importância da atividade econômica,
embora lhe faltasse mais apetência
diante das necessidades emergenciais,
é que não teve dúvidas
de, no início do segundo mandato,
confirmar o que prometera à LivreMercado,
que tanto martelou a respeito do assunto:
criou a Secretaria de Desenvolvimento
Econômico.
A
decisão foi seguida por todos
os demais prefeitos. Chamou para o cargo,
contrariando parte dos petistas mais
à esquerda que queriam um sindicalista,
o executivo Nelson Tadeu Pereira, dono
de carreira ascendente no Grupo Rhodia
e que acabara de se aposentar. A importância
dessa decisão só pode
ser avaliada na medida em que se desnuda
o corpo insensível dos demais
administradores públicos que
passaram pelo Grande ABC antes de Celso
Daniel: nenhum, absolutamente nenhum
deles, ao menos desconfiou que não
tinha o menor cabimento exibir o organograma
da administração pública
municipal sem um quadradinho reservado
às relações com
as forças industriais, comerciais
e de serviços. A suposição
de que a riqueza produtiva do Grande
ABC seria eterna lubrificou o desinteresse
do Poder Público em aproximar-se
dos comandos industriais, por exemplo.

Consórcio
Intermunicipal mais ativo, Câmara
Regional estimulante e Fórum
da Cidadania participativo poderiam
ter acomodado Celso Daniel e reduzido
sua febre regionalista. Qual nada! Ele
liderou a criação da Agência
de Desenvolvimento Econômico,
braço operacional da Câmara
Regional. A agência daria suporte
de dados estatísticos, de projetos,
de planejamento específico para
aplicação pela Câmara
Regional. Pela primeira vez o Grande
ABC prometia organizar-se estatisticamente
para produzir análises que pudessem
beneficiar o conjunto dos municípios
com medidas estratégicas sistêmicas.
 |
Embora
houvesse disfarce generalizado e
fingimento acovardado sobre as idiossincrasias
que permeavam relações
interpessoais e políticas,
foi questão de tempo o desmoronamento
das instituições que
tiveram em Celso Daniel participação
direta ou de apoio. A Câmara
Regional sem formalização
legal e sem recursos financeiros
caiu numa pasmaceira de encontros
de escalões secundários
do governo do Estado. O Fórum
da Cidadania inchou de entidades,
esvaziou as plenárias, perdeu-se
na bobagem de trocar a animação
do processo socieconômico
pela patetice de misturar-se demais
com quem tinha a responsabilidade
da execução. O Consórcio
de Prefeitos resiste mais, planta
algumas ações regionais,
colhe alguns frutos, mas está
longe demais da celeridade do empobrecimento
regional e da força avassaladora
da globalização e
da exclusão social. A Agência
de Desenvolvimento Econômico,
que Celso Daniel presidia desde
a fundação, mal conseguia
recursos para pagar salários
de colaboradores, quanto mais financiar
ações derivadas de
conclusões dos estudos. |
Mesmo
sem apoio permanente de boa parte dos
demais prefeitos e longe do nível
necessário que lideranças
empresariais poderiam oferecer, Celso
Daniel fazia das tripas coração
para manter a agência. Conseguiu
R$ 300 mil do BID (Banco Interamericano
de Desenvolvimento) e também
R$ 300 mil do Banco Mundial para ações
de desenvolvimento. Tudo a fundo perdido
-- isto é, sem compromisso de
devolução.
Por
essas e outras Celso Daniel foi-se afastando
dos debates sobre o Grande ABC nos últimos
meses. Não que deixasse de comparecer
aos encontros, não que retirasse
a estrutura material e funcional da
Prefeitura das atividades. O prefeito
voltou-se mais para a administração
de Santo André. Discreto, paciente,
jamais reclamou de qualquer prefeito
em público. Chegou ao ponto de,
em dezembro último, durante os
festejos de 10 anos de fundação
do Consórcio Intermunicipal,
participar de um debate-balanço
das atividades e poupar seus pares de
paços municipais, preferindo
atribuir a recaída institucional
da região ao que chamou de pouco
empenho da mídia.
Também
repartiu o peso da retração
às dificuldades de financiamento
da estrutura das próprias organizações
responsáveis pela integração.
Celso Daniel começou a embalar
o sonho de influenciar na equação
metropolitana da Grande São Paulo,
e do Grande ABC em particular, a partir
da massa crítica de Brasília,
como eventual executivo de ouro de Lula
da Silva. A constatação
de que os municípios do Grande
ABC só conseguirão melhorar
os indicadores sociais e econômicos
a partir de ação integrada,
porque é assim que investidores
enxergam a região, sustenta a
perspectiva de que são indispensáveis
aportes financeiros públicos
de instituições de fomento
centradas em Brasília.
Integrantes
do grupo de Lula da Silva, muitos dos
quais originários das greves
sindicais no Grande ABC, exerceriam
influência suficiente em Brasília
para fazer retornar à região
nacos de impostos federais que insistem
em ser arrecadados no Grande ABC mas
são repassados a outros Estados
politicamente mais influentes no jogo
de forças do Congresso Nacional.
Por
mais que Celso Daniel eventualmente
estivesse de olho em Brasília
e acenasse com a possibilidade de retirar
da biografia política do Grande
ABC o vácuo de representatividade
da classe política na Capital
do País, sua ação
regional não estava esgotada.
Ele fez florescer seguidores influentes,
entre os quais os próprios prefeitos.
Embora
tenham colocado o pé no breque
muito antes de Celso Daniel, que só
o fez por descobrir essa realidade,
os prefeitos sabem que apagar os incêndios
municipais se tornará rotina
e não circunstância se
a visão integracionista for atirada
na lata do lixo. Até por questão
de sobrevivência dos grupos políticos
que dirigem, eles não podem deixar
de olhar para o futuro de integração.
Se o passado de fartura industrial induzia
ao desleixo, o presente de evasão
contínua de riqueza e de permanente
geração de pobreza será
menos condescendente com quem insistir
em achar que os limites do Grande ABC
são seus próprios municípios
isoladamente. O ajuntamento estratégico
e racional pode parecer um sonho irrealizável,
mas basta observar os movimentos de
aproximação na União
Européia de 300 milhões
de habitantes de nações
historicamente separadas por diferenças
culturais, econômicas, sociais
e políticas para entender o quanto
o Grande ABC está atrasado.
O
legado metropolitano de Celso Daniel,
portanto, é preciosidade que
nenhum outro administrador público
do Grande ABC ousou liderar e lapidar
durante tanto tempo seguido. As fraturas
de relacionamento são naturais
quando se observa que o caixa mal suporta
as contas a pagar e que o regime de
Lei de Responsabilidade Fiscal colocou
todos os prefeitos na marca do pênalti.
Há tantas especificidades municipais
a serem gerenciadas pelos prefeitos
do Grande ABC que os ideais integracionistas
de Celso Daniel pareciam sonhos irrealizáveis.
Essa é a diferença entre
administradores comuns e visionários.
A
lucidez com que interpretava a possibilidade
de o Grande ABC deixar de lado o Complexo
de Gata Borralheira -- que se traduz
no sentimento generalizado de que a
Capital é sempre superior, é
a Cinderela -- embalou os planos de
metropolização institucional
e operacional da região vista
por Celso Daniel. Se as cidades locais
se comunicam por um sistema viário
complementar, se são olhadas
como unidade socioeconômica e
cultural pelo Brasil inteiro, se igualmente
não contam com televisão
aberta própria, se sofrem as
mesmas dores da fama de riqueza e de
pobreza que convivem num mesmo ambiente
que se transforma em criminalidade,
não tinha sentido perderem o
senso do coletivismo.

Diferentemente
de Lauro Gomes de Almeida, político
do passado que comandou as prefeituras
de São Bernardo e Santo André
e que, portanto, poderia ser interpretado
como gerenciador público regionalizado,
foi Celso Daniel quem ocupou por 10
anos o posto de principal prefeito do
Grande ABC, embora se limitasse a três
gestões à frente de uma
única Prefeitura.
A
contradição que opõe
um mesmo prefeito paroquial em dois
municípios distintos e Celso
Daniel multiplicador baseado numa única
Prefeitura deve ser estabelecida para
que não se cometa a insensatez
de observar Lauro Gomes de Almeida sob
prisma fantasioso. Ele foi prefeito
de dois municípios da região
mas voltou-se principalmente para os
limites territoriais que o elegeram
por último. Sem contar que era
um político de estilo radicalmente
diferente de Celso Daniel. Notabilizou-se
pelo caciquismo, pelo populismo e pelo
mandonismo. Um perfil que Bruno José
Daniel, pai de Celso, conhecia como
poucos como secretário de Lauro
Gomes. Contam-se histórias de
Lauro Gomes que, transpostas para o
panorama político nacional atual,
se assemelhariam às biografias
de líderes políticos do
Norte e Nordeste. Um ACM antecipado
pelo tempo.
Se
forem filtradas as principais características
de Celso Daniel como administrador público
e comparadas com as melhores qualidades
individuais dos atuais prefeitos e seus
antecessores na região, a conclusão
a que se chegará é que
ele provavelmente perderia em intensidade
para a maioria. O que o tornou o melhor
é que conseguia em porção
muito próxima, ou superior, agregar
os melhores predicados de todos os demais.
Algo semelhante com o que Pelé
representou para o futebol. O Rei não
cabeceava como Baltazar, não
chutava como Rivelino, não lançava
como Gerson, não driblava como
Tostão, não tinha a finesse
de Didi, o ímpeto de Vavá
e o senso de posicionamento de Romário,
só para citar alguns dos principais
craques brasileiros. Mas Pelé
foi insuperável justamente porque
era a soma das melhores qualificações
individuais dos grandes craques.
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Celso
Daniel era um paradoxo de
si mesmo: tímido, mas muito
envolvente |
Celso
Daniel numa reunião da
Câmara
Regional: visão metropolitana
aguçada |
Celso
Daniel transformou-se no melhor gerenciador
público do Grande ABC porque
seu horizonte era a política
macroeconômica e seu campo de
combate os 800 quilômetros quadrados
da região. Era especialista em
planejar, organizar e centralizar a
estratégia sem deixar de descentralizar
as ações. Também
tinha fairplay para montar e manter
equipes de trabalho porque valorizava
sobremodo os assessores. Era um espectador
anônimo das exposições
de seus auxiliares, mas quando necessário,
chamado a intervir, mostrava a destreza
professoral de avaliações
sempre claras, hierárquicas --
tudo que anotava disciplinadamente.
Reagia com segurança nas eventuais
contraposições. Creditava
a quem de direito eventuais decisões
tomadas em grupo.
Extremamente
tímido, Celso Daniel tinha tudo
para ser um orador com dificuldades
de audiência. Mas era bom de discurso,
de palanque, de seminário. Falava
com mais substância do que eloquência.
Mas quem resiste a incorporar novos
conhecimentos transmitidos por alguém
que não se perdia nos enfoques?
A certeza de que com Celso Daniel haveria
sempre interlocução inteligente
jamais se frustrou. Coerente do começo
ao fim, sabia o momento de elevar a
voz, de dar uma entonação
mais grave. Gesticulava o suficiente.
Nos encontros fechados, jamais cheirou
a populismo. Nos palanques das campanhas
eleitorais sabia que o povo que se dispõe
a ir às ruas não admite
falta de empolgação. Por
isso era mais enfático.
Celso
Daniel também era muito organizado.
Cumpria todos os compromissos da agenda
sem reclamar. A política era
seu sacerdócio mas também
sua antítese, porque a introspecção
lhe criava algumas barreiras e algumas
restrições. Mas a força
do animal político que o fez
um paradoxo de si mesmo era superior.
Deslocado
das conversas e das reuniões
de amigos e familiares, Celso Daniel
se tornava comunicativo na dose necessária
nos compromissos de homem público.
Quando no exercício da política,
atirava às traças a quietude.
No apartamento ou na casa dos familiares,
geralmente trocava bate-papos por leitura.
Adorava pipocas, mas conciliava o prazer
com a paixão e o respeito pelas
obras literárias. Subvertendo
o costume de que pipoca se come com
as mãos, que se encharcam de
óleo, Celso Daniel preferia uma
colher para não manchar os livros.
O confronto covarde que o abateu em
hora e em local incertos opôs
ao cérebro disciplinado e enriquecido
por longas jornadas de empenho cultural
mãos engatilhadas pela brutalidade
descomunal.
Talvez
o único pecado do administrador
Celso Daniel, além da natural
e justa vaidade intelectual, era a fidelidade
aos colaboradores. Nem todos mereciam
tanto zelo. Nem todos devolviam em produtividade
e objetividade o que Celso Daniel oferecia
em confiança e em liberdade.
Mas foram poucos os casos com essa textura
de relacionamento.
Celso Daniel deixou mais que os pressupostos
de integração regional
como herança político-administrativa
ao Grande ABC.
Diversas
peças importantes do quebra-cabeça
de regionalidade foram selecionadas
e valorizadas por ele durante vários
anos. Casos de técnicos importantes
que, a despeito do rebaixamento de participação
da maioria dos prefeitos, mantiveram
o Consórcio Intermunicipal em
ritmo imensamente superior aos tempos
dos caciques que pontuaram a administração
pública sob ótica exclusivamente
municipal.
Embora tenha combatido o tradicional
isolamento municipal dos administradores
que o antecederam e incentivado a integração
dos prefeitos cujos mandatos coincidiram
com o seu, Celso Daniel não vacilou
no próprio terreiro em que procurou
exorcizar o sentimento de periferia
de Santo André frente a São
Paulo.
Na
verdade, foi o prefeito que mais se
projetou contra o Complexo de Gata Borralheira.
O programa urbanístico Eixo Tamanduatehy,
a Cidade Pirelli, a cobertura do então
decadente Calçadão Oliveira
Lima, a plantação de palmeiras
imperiais em pontos estratégicos,
a requalificação de ruas
e avenidas de intenso tráfego,o
Programa de Inclusão Social e
a reformulação e transformação
do Parque Duque de Caxias no primeiro
centro de lazer 24 horas da Grande São
Paulo -- tudo isso tinha sincronia com
o jeito todo especial de Celso Daniel
dirigir Santo André.
Como
se poderia esperar de guetos de conservadorismo
renitente, Celso Daniel acabou criticado
por ultrapassar os limites do convencional.
As viagens internacionais eram contabilizadas
por oposicionistas rasos com a mesma
paranóia de quem conta os dias
para se livrar do xadrez. Requisitadíssimo
por organismos e entidades internacionais,
Celso Daniel frequentava seminários,
debates, palestras e eventos em todo
o mundo. Geralmente com despesas pagas
pelos promotores, não raro do
próprio bolso.
Celso Daniel encontrava
tempo para se reencontrar com o basquetebol
No
ano passado, por exemplo, o prefeito
esteve em Nairóbi, Quênia,
como expositor de experiência
do Programa Integrado de Inclusão
Social, em evento promovido pelo Habitat,
da ONU (Organização das
Nações Unidas). Depois,
seguiu para Nova York, Estados Unidos,
onde participou da Conferência
Istambul+5, que trata de soluções
urbanísticas para várias
cidades do mundo.
As
andanças de Celso Daniel tinham
mais que sentido de relacionamento com
a intelectualidade internacional. Ele
apresentava os resultados como andarilho
de classe. Foram estabelecidos vários
convênios e acordos de cooperação
com importantes repasses de recursos.
"Construímos nesse período
uma rede de relações com
cidades do Exterior e organismos internacionais.
Sem exagero, podemos dizer que estamos
agindo também como embaixadores
de nossa cidade e do Grande ABC"
-- expôs o prefeito após
retornar de Nova York em maio de 2001.
Antes
disso, no início do terceiro
mandato, Celso Daniel introduziu na
estrutura operacional da Prefeitura
o que aparentemente seria um acinte
para a falta de visão regional
e nacional de seus antecessores: criou
a Secretaria de Captação
de Recursos e Relações
Internacionais, comandada por Jeroen
Klink, holandês naturalizado brasileiro
que já estava incorporado à
administração como assessor
especial.
A
extroversão estratégica
de Celso Daniel chocava os vanguardistas
do atraso que conferiam exagerados adereços
turísticos a quem geralmente
era encontrado nos salões dos
eventos ou à beira de piscinas
com algum livro à mão.
Celso
Daniel olhava em perspectiva, mas seus
pés estavam fincados na Santo
André pela qual combatia com
postura de esgrimista. Sabia, por isso,
que a criminalidade no Grande ABC não
poupava Santo André. Por isso,
lançou também em janeiro
de 2001 a Secretaria de Combate à
Violência.
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Celso
Daniel com lideranças políticas
e
sindicais: multiplicidade nos
relacionamentos |
Celso
Daniel e uma de suas jóias
da Coroa, o projeto Cidade Futuro |
Continuou
dando pulso forte a uma operação
aparentemente antipopular, mas cujos
resultados políticos eram permanentemente
monitorados por pesquisas de opinião
pública: as multas de trânsito
registradas por radares fixos e móveis.
Os reclamos provocados por motoristas
vítimas de alguns trechos viários
considerados armadilhescos foram reduzidos
na exata proporção em
que viraram reclamação
na mídia. As medidas corretivas
da política de trânsito
comandada pelo secretário Klinger
Sousa permaneceram e fizeram escola,
embora o indispusesse com grupos de
pressão. Praticamente todos os
prefeitos do Grande ABC adotaram ferramenta
semelhante para acabar com a farra da
irresponsabilidade de motoristas que
só se educam pela dor no bolso.
Recente
explicação do diretor
de trânsito de São Caetano
ajuda a entender o sentido de vasos
comunicantes da integração
prática do Grande ABC. Para justificar
a introdução de radares
móveis e fixos, recorreu o executivo
municipal à simplicidade óbvia:
como todo o Grande ABC está cercado
de equipamentos que enquadram os motoristas
mais afoitos, e somente São Caetano
não constava do mapa de limites,
as ruas do Município viraram
pistas de corrida. O que um dirigente
de trânsito definiu sob ótica
específica, Celso Daniel constatara
muitos anos antes com a dimensão
de administrador sem limites territoriais
e temáticos.
O
projeto Santo André Cidade Futuro
é uma das heranças que
Celso Daniel deixa para a sociedade
desembaraçar. Trata-se de definir
o desenvolvimento sustentado de Santo
André até o ano 2020.
Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento
Urbano, Qualidade Ambiental, Inclusão
Social, Identidade Cultural, Educação
e Reforma do Estado são pontos
de sustentação da programação
que numa primeira etapa envolveu 2,9
mil moradores em 99 reuniões
em bairros. Jamais na história
dos municípios da região
tanta gente participou diretamente de
diretrizes que projetassem o desenvolvimento
sustentado para as décadas seguintes.
Uma contraposição à
história de uma região
construída aos saltos e com o
prevalecimento de abordagens pontuais.
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Celso
Daniel e o Calçadão
Oliveira
Lima com cobertura: auto-estima
em jogo |
Celso
Daniel e Jordi Borja:
observando o Eixo Tamanduatehy
do alto |
Santo
André Cidade Futuro foi um show
de participação popular
que arrefeceu nos últimos meses
porque há imediatismo por respostas
decorrente de um Município que
sofre as dores do esvaziamento industrial
e do enxugamento de postos de trabalho.
Santo André Cidade Futuro tem
a cara do Celso Daniel planejador do
tempo. É uma carta de intenções
cujas diretrizes de cada um dos sete
grupos temáticos nem sempre se
complementam. Ao optar pelo título
Cenário Para Um Futuro Desejado,
a administração de Celso
Daniel reconhecia o caráter ao
mesmo tempo prospectivo e utópico
dos resultados. O programa comprova
a descentralidade administrativa do
prefeito, que entregou à Terezinha
Santos a tarefa de comando.
A
veia cultural de Celso Daniel foi exposta
entre o final de 1999 e inicio de 2000,
quando o Eixo Tamanduatehy e vários
projetos urbanísticos da Prefeitura
de Santo André foram exibidos
durante a 4ª Bienal Internacional
de Arquitetura de São Paulo.
Foi a primeira vez que uma representação
oficial do Grande ABC se fez presente
no maior evento do setor no País,
reservado para o Pavilhão Ciccillo
Matarazzo, no Parque Ibirapuera.
A
Bienal Internacional de Arquitetura
que recepcionou Santo André não
foi ação exclusivamente
cultural. Por trás desse movimento
inusitado estava a expectativa de sensibilizar
investidores a descobrir o potencial
de transformações urbanísticas
e econômicas do imenso corredor
formado pela Avenida dos Estados e seus
entornos, casos da via férrea
e da Avenida Industrial.
Lançado
em abril de 1999 no Palácio de
Mármore, o Eixo Tamanduatehy
foi exposto na sequência no Masp
(Museu de Arte de São Paulo)
e despertou interesse da comunidade
acadêmica e de profissionais de
arquitetura por representar propostas
para superar a posição
de periferia do Grande ABC em relação
a São Paulo.
Formado por um conjunto de áreas
que compreendem cerca de 700 hectares
ao longo de 10 quilômetros entre
a divisa de São Caetano e o limite
com Mauá, o Eixo Tamanduatehy
contou com projetos encabeçados
por nomes prestigiadíssimos,
como Cândido Malta (Brasil), Christian
de Portzamparc (França), Eduardo
Leira (Espanha) e Joan Busquets (Espanha),
assessorados por consultoria dos urbanistas
Jordi Borja, da Espanha, e Raquel Rolnik,
do Brasil.
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Celso
Daniel como espectador: hora
certa e indispensável para
ser ouvido |
Celso
Daniel com lideranças empresariais:
comunismo virou simples passado |
Já
fazem parte do cenário real de
obras do Eixo Tamanduatehy o campus
da UniABC, o ABC Plaza e o Supermercado
Extra, na Avenida Industrial; a nova
Rodoviária e o Autoshopping Global
na Avenida dos Estados, além
da Cidade Pirelli, em fase de pré-lançamento.
O
desfalque de Maurício Faria,
responsável pela coordenação
do projeto e chamado para reforçar
a equipe de Marta Suplicy, atravancou
o ritmo mas não comprometeu o
programa que faz parte de Santo André
Cidade Futuro. Para Celso Daniel, a
tradução dessa equação
é que mais dia, menos dia Santo
André se encontrará com
a modernidade.
Celso
Daniel tinha um olho no futuro e outro
no presente quando se tratava de dar
novo ritmo ao desenvolvimento econômico.
Só o ritmo não conseguia
acompanhar os problemas acumulados em
décadas de imprevidência
pública e também as questões
ditadas por novos referenciais de competitividade.
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico
de Santo André encontrou sérios
obstáculos de infra-estrutura
material e de recursos humanos para
os enfrentamentos que se apresentaram.
Se o Eixo Tamanduatehy inebriava pelo
casamento entre economia e urbanismo,
a velharia legislativa de décadas
de fartura e que atravancava qualquer
possibilidade de incremento de atividades
produtivas foi demoradamente estudada
e finalmente eliminada.
Um
feito inédito e pouco mensurado
no acervo gerencial de Celso Daniel
foi a radicalização no
tratamento das leis que acabaram com
as amarras para instalação
e ampliação de indústrias.
As medidas eliminaram da geografia municipal
qualquer tipo de restrição,
num monumento de pragmatismo liderado
por um administrador público
que acompanhou atentamente o esfacelamento
industrial de Santo André nos
últimos 30 anos. Celso Daniel
transpôs o radicalismo dogmático
do marxismo dos tempos de juventude
e se identificava, cada vez mais, com
a social-democracia da Europa do Estado-do-Bem-Estar-Social,
na qual se inspirava em seus projetos
para Santo André.
Também
a legislação do setor
terciário -- igualmente dinossáurica
-- foi para o ralo com a retirada de
cláusulas de reserva de mercado
territorial para empreendimentos como
farmácias e postos de combustíveis,
entre outros, que contavam com salvaguarda
de distância mínima para
impedir o choque de oferta de produtos
e serviços em seus arredores.
Foi aprovado ainda o funcionamento legal
de pequenos negócios em espaços
originariamente destinados a residências.
Nada
mais prático, porque a desindustrialização
do Grande ABC, principalmente de Santo
André, levou milhares de ex-operários
a constituir negócios. Não
faltam garagens que viraram pizzarias,
bares e mercearias, entre outros estabelecimentos.
Adequar as leis à realidade é
uma maneira de quebrar a espinha dorsal
da indústria de multas e de extorsão.
Como
os demais prefeitos da região
e do Brasil, Celso Daniel só
não conseguiu disciplinar os
investimentos na área comercial.
Grandes conglomerados nacionais e internacionais
de varejo, casos de supermercados, hipermercados,
home-centers e shoppings, tomaram o
Grande ABC nos últimos anos sem
que se opusessem restrições.
Mais que isso: os administradores públicos
mergulharam de cabeça em oferecer
gentilezas para atrair esses investimentos.
A preocupação em recuperar
parte dos tributos que se esvaíram
com o enfraquecimento industrial e a
ameaça de ver municípios
vizinhos absorvendo as propostas de
instalação de novos redutos
de consumo tornaram a administração
de Celso Daniel semelhante a dos demais
prefeitos no mercado varejista. E a
recíproca dos demais prefeitos
também é verdadeira.
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Celso
Daniel no parque Duque de
Caxias: espaço urbano mais
valorizado |
Celso
Daniel era pontual nos compromissos,
sabia delegar mas mantinha controle |
Isso
quer dizer que a vulnerabilidade do
pequeno negócio no Grande ABC,
à parte a inexistência
de instrumentos que reduzam o impacto
provocado pela disparidade de forças
com a concorrência de maior porte,
é assunto que está diretamente
relacionado à legislação
federal imprevidente. De qualquer forma,
Celso Daniel agiu de maneira tópica
com a chamada utilização
da operação urbana. Um
exemplo é o ABC Plaza, que provocou
alterações no uso e ocupação
do solo anteriormente tomado por uma
indústria e que, como compensação,
investiu no sistema viário ao
redor. De qualquer modo, não
pode ser acusado de omisso, porque tentou
o paliativo com o projeto Centros de
Bairros, que consiste em utilizar ações
urbanísticas e viárias
como freio à fuga de consumidores
da periferia em direção
a estabelecimentos de maior porte da
região central.
Por
todo esse conjunto de obras físicas
e programas que desafiam o tempo, Celso
Daniel merece muito mais que ser lembrado
como novo nome oficial do Parque Duque
de Caixas e eventuais outras homenagens
a que fez jús. Somente a dissiminação
da saga que empreendeu para retirar
o Grande ABC da condição
de satélite da Capital possibilitará,
de fato, que as atuais e futuras gerações
de gerenciadores públicos entreguem-se
com mais empenho à metropolização
sempre protelada. Celso Daniel é
um dos poucos exemplares de que a paixão
municipal -- que não escondia
curtir por Santo André -- jamais
obscureceu seus horizontes cosmopolitas.
É segui-lo ou continuar na pasmaceira
provinciana de sempre.
Num
ônibus, a última
entrevista |
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A última grande entrevista
que Celso Daniel concedeu a LivreMercado
foi publicada em abril do ano
passado. Ele e o jornalista Daniel
Lima viajaram no mesmo ônibus
para São Carlos num domingo
de manhã, com uma delegação
de torcedores do Santo André.
A entrevista não foi acertada
previamente, mas um providencial
gravador levado pelo jornalista,
informado sobre a presença
do prefeito, garantiu mais de
duas horas de conversa. Foram
necessárias oito páginas
amarelas para a fiel transposição
de um diálogo-debate sobre
o qual os demais passageiros só
tomaram conhecimento quando publicado.
O
título Terciário
Avançado É a Grande
Alternativa resumia a essência
da entrevista. Alguns trechos
selecionados mostram o quanto
Celso Daniel, mesmo em dia de
descanso, de passeio, empolgava-se
com o Município que o viu
nascer. E também com a
região:
"Mantivemos
algumas empresas extremamente
importantes, de porte e modernas
tecnologicamente, mas perdemos
muito da potência que acumulamos
ao longo de todo o século
XX. A despeito disso, começaram
a se desenvolver atividades do
setor terciário, particularmente
comerciais".
"A
imagem pública de Santo
André, particularmente
para os andreenses, é contraditória.
Ao mesmo tempo em que percebem
Santo André como cidade
dinâmica, inclusive do ponto
de vista econômico mesmo
com perdas industriais, os andreenses
captam que o fato de não
haver mais emprego industrial
significa perda em termos de cidadania,
de direito ao trabalho de qualidade".
"Santo
André tem uma vantagem
que pode ser colhida a partir
de sua desvantagem. Qual é
a desvantagem de Santo André?
O esvaziamento industrial muito
maior do que o dos outros municípios.
Mas isso pode se transformar em
vantagem porque a percepção
do problema antes que isso se
consolide nos outros municípios
pode nos levar a constituir outro
perfil econômico, sintonizado
com os tempos que estamos vivendo".
"Não
conseguimos ao longo do século
XX, e ainda não estamos
conseguindo, internalizar no Grande
ABC um conjunto de prestadores
de serviços de apoio à
produção para as
atividades econômicas que
já estão na região.
A demanda está na região,
mas a oferta é buscada
fora. São atividades de
engenharia, de informática,
de comunicações,
de marketing".
"Precisamos
ter condições de
combinar iniciativas importantes
na área de lazer e entretenimento
com a manutenção
do parque industrial".
"Apesar
da falta de iniciativas públicas,
São Paulo agregou novas
atividades no terciário
avançado e tem-se tornado
o coração de uma
metrópole com forte vocação
terciária".
"A
questão de transporte,
de logística, é
via de mão dupla. Isso
significa que, se tivermos condições
adequadas, poderemos nos constituir
num centro avançado de
serviços complementares
a São Paulo, e não
dependente como hoje".
"Com a nova identidade de
Santo André expressa no
Eixo Tamanduatehy, pretendemos
que os moradores adquiram auto-estima".
"Temos
de aproveitar os aspectos positivos
de estarmos próximos de
São Paulo. No nosso caso,
é contribuir para repensar
a metrópole como policêntrica,
ou seja, como um conjunto de centros
do ponto de vista urbano e do
ponto de vista econômico
complementares entre si".
"Concordo
com LivreMercado nesse ponto:
estamos devendo na Secretaria
de Desenvolvimento Econômico.
Jogamos muito peso na integração
regional. Na verdade, jogamos
tudo na integração
regional. Por isso não
montamos uma equipe com peso próprio
para fazer trabalho específico
para Santo André. Essa
dívida é uma de
minhas prioridades nesta gestão".
"Não tenho dúvidas
de que a reconversão econômica
de Santo André e do Grande
ABC depende do despertar dos pequenos
negócios".
"Temos
um trabalhador com muita experiência
na região, mas que se acostumou
a ser assalariado; jamais foi
preparado para empreender. Para
empreender é preciso estar
disposto a isso e ter os instrumentos
adequados".
"É
impressionante como as características
dos problemas da região
de Lilly, na França, são
semelhantes às do Grande
ABC. Eles também têm
Agência de Desenvolvimento
Econômico, como nós,
com a diferença de que
lançaram a entidade há
19 anos, e nós há
apenas dois".
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