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Responsável
por LivreMercado desafia
Conselho Editorial e responde a 30 questões
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Esta
entrevista é mais um capítulo
carregado de reformismo de LivreMercado:
para comemorar 18 anos da publicação,
o jornalista Daniel Lima desafiou
o Conselho Editorial a encaminhar
questionamentos a serem respondidos
nestas páginas amarelas.
Uma
enxurrada de indagações
desabou em forma de e-mails endereçados
por larga parcela dos 247 integrantes
dessa instância editorial
inédita no jornalismo brasileiro.
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Por isso, Daniel Lima teve de recorrer
à sistematização
temática. Resultado: as perguntas
foram compatibilizadas e agrupadas em
30 assuntos.
Para
os leitores compreenderem o tamanho
do desafio a que se propôs o jornalista
mais combativo do Grande ABC, basta
imaginar se algum outro comandante de
qualquer veículo respeitável
de comunicação abriria
as portas para semelhante interação.
Mais que abrir as portas, Daniel Lima
não foge da raia, não
refuga uma única questão
e não faz encenação
quando se trata de avaliar a regionalidade
do Grande ABC, espécie de Evangelho
de uma carreira precocemente iniciada
aos 15 anos. Para ele, uma das simbologias
do que consagrou como Complexo de Gata
Borralheira da região foi a lotação
de um ginásio de esportes em
São Bernardo, ano passado, para
a transmissão em telão
da final do Big Brother Brasil, enquanto
pontos decisivos ao futuro do Grande
ABC não têm o respaldo
de cidadania, como é o caso do
autonomismo curricular da UFABC (Universidade
Federal do ABC).
Desindustrialização
e desconcentração
O Grande ABC dos anos 1990 viveu esses
dois fenômenos econômicos,
diferente, portanto, do que maliciosamente
propagaram alguns precipitados e supostos
estudiosos. Eles desconheciam ou fingiam
desconhecer a morfologia industrial
da região, por isso sempre se
entregaram a holofotes triunfalistas,
decididos a agradar ao distinto público
avesso a duras verdades. Provamos com
inúmeros dados e análises
que os efeitos da abertura dos portos
nos anos 1990, combinados com a guerra
fiscal, além de vetores macroeconômicos
ditados pela globalização
financeira lubrificada pela valorização
insana do dólar, colocaram o
Grande ABC à beira de um ataque
de nervos. Perdemos 100 mil empregos
industriais naquele período.
Só no governo Fernando Henrique
Cardoso, foi para o espaço um
terço da produção
industrial. Ainda não conseguimos
recuperar integralmente nem os empregos
nem a produção, o que,
por si, já seria um atraso.
Mais
poderes para o Conselho Editorial
A ampliação das atividades
do Conselho Editorial de LivreMercado
deve ser avaliada com cuidado. A realização
de debates com prefeituráveis
é sugestão interessante,
independentemente da fórmula
que venha a ser introduzida. Entretanto,
é preciso levar em conta que
não pretendemos exigir demais
dos representantes da sociedade civil
que constam da relação
dos conselheiros, porque a maioria tem
atividades em outras instituições.
Acreditamos que estamos contribuindo
para melhorar o escasso grau de cidadania
do Grande ABC ao motivar esse valioso
grupo. Talvez seja possível levar
aos próprios conselheiros a proposta
de incursões no campo eleitoral.
Incluiria como extensão dessa
iniciativa debates com os atuais prefeitos
e lideranças locais dos Legislativos
municipais e estadual.
Conselho
Editorial e Fórum da Cidadania
Quando criamos o Conselho Editorial
de LivreMercado e, principalmente, quando
o ampliamos, jamais imaginamos uma réplica
do Fórum da Cidadania. Não
poderíamos reproduzir um equívoco.
Sim, o erro do Fórum da Cidadania
foi brotar como braço político
do Diário do Grande ABC. Os vínculos
se provaram desastrosos por conta do
divisionismo da cúpula daquela
companhia num momento de inchaço
de entidades. Além disso, impregnaram-se
no Fórum objetivos político-partidários
que o estatuto e o bom senso refugavam.
Sem contar que a tutela do jornal converteu-se
em blindagem às bobagens cometidas
pelo Fórum da Cidadania, contra
as quais, aliás, LivreMercado
sempre fez ácidas objeções.
O Conselho Editorial de LivreMercado
jamais será braço político-eleitoral
da publicação. Muito menos
extensão corporativa. Prevalecerá
sempre e sempre atuação
endógena de suporte editorial.
O que seus membros fazem fora desse
âmbito não é mérito
nem problema de LivreMercado.
Regionalidade
pós-Celso Daniel
O Grande ABC perdeu demais o tônus
de regionalidade após a morte
do prefeito Celso Daniel. Antes mesmo
disso, o próprio prefeito de
Santo André já se sentia
peixe fora d’água porque
a dinâmica do Clube dos Prefeitos,
da Agência de Desenvolvimento
Econômico e da Câmara Regional
refluía ao sabor de estocadas
municipalistas e partidárias
num contexto de esvaziamento industrial
negado apenas como jogo de cena ou como
prova de insanidade mental. Vivemos
quadro institucional apoplético
se considerarmos os objetivos traçados
nos melhores momentos de disseminação
dos pilares da regionalidade, em meados
dos anos 1990.
Conselho
Consultivo no Clube dos Prefeitos
A reestruturação do Clube
dos Prefeitos não está
limitada à legalização
formal como instrumento de ação
coletiva, segundo determina a legislação
federal. Pesa muito mais a dificuldade
para degelar um dos ideais de Celso
Daniel. Sim, o Conselho Consultivo que
LivreMercado defende como mecanismo
democratizante e prospectivo do Clube
dos Prefeitos é uma iniciativa
de Celso Daniel, à qual de maneira
geral a maioria dos prefeitos simplesmente
dá de ombros. Mais que a abertura
para a sociedade civil em forma de Conselho
Consultivo, é importante que
o regulamento não coloque a cidadania
como pretexto para legitimar medidas
que estão muito distantes das
exigências sociais e econômicas
acumuladas ao longo dos anos. Um Conselho
Consultivo amorfo e egocêntrico
não teria valor algum.
O
endereço da corrupção
regional
Engana-se quem imagina, pensa e divulga
que corrupção é
algo implícito exclusivamente
no setor público e que envolva
simplesmente dinheiro. Corrupção
é um guarda-chuva imenso que
tem raízes na falta de cidadania,
ou na cidadania incipiente. Uma sociedade
fragmentada e individualista, doutrinada
ao consumismo material e incapaz de
imaginar os próximos 10 anos
é uma sociedade sem lastro ético
e moral para fazer cobrança no
futuro. Vivemos situação
em que se multiplicam prevaricações
financeiras, éticas, administrativas,
políticas, eleitorais, informativas
tanto no setor público quanto
no privado. Somente uma sociedade potencialmente
corrupta nos pressupostos de cidadania
poderia lotar um ginásio de esportes
para acompanhar, num telão, uma
final de Big Brother que envolvia um
representante de São Bernardo,
enquanto se omite completamente nos
destinos da UFABC (Universidade Federal
do ABC) que, ingenuamente, muitos entendem
que faz parte de nossa geografia social
e econômica. Nossa Cidadania perde
de goleada para o BBB.
Metropolização
da Grande São Paulo
Os arquivos estão repletos de
matérias jornalísticas
sobre a patética promessa de
metropolização da Grande
São Paulo. Por mais que seja
compreensível a dificuldade política
de harmonizar interesses antagônicos,
é inqualificável o desprezo
do governo do Estado nos últimos
20 anos. A temática voltada para
a metropolização só
está no acostamento de prioridades
do conglomerado econômico mais
importante da América do Sul
porque há completo alheamento
da classe política e total desinteresse
da sociedade. Sem contar a omissão
da Imprensa que, por incapacidade, descuido,
despreparo ou seja lá o que for,
prefere assuntos pontuais cujo horizonte
de responsabilidade social não
dobra a próxima esquina. A Grande
São Paulo de 39 municípios,
20 milhões de habitantes e um
dos focos mais persistentes de mudança
da matriz econômica vive sufocamento
industrial e inchaço do terciário
como elementos letais à mobilidade
social. Não é à
toa que nos 10 últimos anos,
conforme a Folha de S. Paulo, só
a Capital perdeu o equivalente à
população de Santos no
Centro expandido, de classe média,
e ganhou uma Guarulhos na empobrecida
periferia.
Meio
ambiente em discussão
LivreMercado possivelmente não
tenha mergulhado com profundidade no
meio ambiente do Grande ABC, mas também
não se omite. Não foram
poucos os cases que ao longo dos anos
ganharam destaque no Prêmio Desempenho.
A Represa Billings foi tema de várias
reportagens. A ocupação
desordenada por núcleos de favelas
também foi enfaticamente criticada.
Talvez seja esse, entretanto, um dos
passivos da publicação
em reportagens analíticas.
Prejulgamentos
do jornalismo
Contrariamente ao lugar-comum da grande
mídia, principalmente dos jornalões
que comemoram efusivamente a quebra
de algumas supostas barreiras de liberdade
de expressão da Lei de Imprensa,
entendo que é preciso criar contrapartidas
para que o jornalismo não seja
um festival de abusos e irresponsabilidade,
como estamos cansados de assistir por
conta de interesses econômicos,
financeiros e políticos. Gostaria
de ver o modelo de LivreMercado, com
mais de duas centenas de conselheiros
editoriais, reproduzido em veículos
de comunicação que cantarolam
independência editorial e respeitabilidade
quando de fato o que assistimos é
um avolumar de arbitrariedades, de interesses
de grupos organizados, de sofreguidão
econômica, entre tantas mazelas.
Prejulgamentos são uma rotina
seletiva que premia com tratamento protetor
os amigos da casa e destroem adversários
num mimetismo típico da arena
partidária. Jornalismo não
é empreendimento negocial como
outro qualquer. Valores éticos
devem constar do primeiro ao último
mandamento de compromisso social.
Como
sistematizar cadeias industriais
É um verdadeiro desafio colocar
no mesmo espaço de debates cadeias
industriais tão segmentadas,
como são os casos dos setores
automotivo, petroquímico e de
cosméticos. A perspectiva de
que o Grande ABC se ajeite economicamente
sem que os setores automotivo e petroquímico
marquem encontro com o futuro é
por demais ilusória. Lembramos
que uma das capas mais importantes da
história de LivreMercado foi
“Nosso futuro é de plástico”
e também “Quem desarma
a bomba sindical?”, entre tantas
que trataram dos petroquímicos
e dos automóveis. Não
é o caso dos petroquímicos,
mas o setor automotivo é por
demais concorrencial e independente
entre si no Grande ABC e, como conta
com associação empresarial
(Anfavea) como ponta-de-lança
de negociação setorial,
vivemos praticamente à sombra
do poder que exercita fora do território
regional. A solução passa
pelo sindicalismo que, entretanto, segue
corporativo como todo sindicalismo e
pouco se dá para vetores regionais.
Nova
edição de Nosso Século
XXI
Não se pode temer que o volume
2 do livro Nosso Século XXI,
sete anos após o primeiro, seja
um risco de fracasso entre outros motivos
porque faltará entre os articulistas
o exuberante Celso Daniel. Reuniremos
novamente número expressivo de
pensadores regionais que confluirão
conhecimentos com gestores públicos,
privados, sociais e culturais. A primeira
versão do livro contou com grupo
admirável de ensaístas
e a segunda promete brilho semelhante.
Espero que a síndrome cinematográfica
de sequências que perdem o frisson
não contamine essa obra editorial.
Plano
Estratégico é a melhor
alternativa
O futuro do Grande ABC passa por Planejamento
Estratégico Regional que coloque
a competitividade econômica como
ponto de honra. Articulações
municipais são importantes dentro
de cada território, mas nada
substituirá a sistematização
de propostas de caráter emergencial
que possam restaurar a força
econômica regional a partir de
confrontos estatísticos com regiões
mais competitivas do País. Somente
uma consultoria internacional que conheça
a fundo os efeitos da globalização
e localize sem escorregões novas
vocações instauraria ordem
nessa casa-da-mãe-joana de desvarios
de cada um por si e o resto que se dane.
Um
Anhembi para nossas empresas
Estão desgastadas as iniciativas
que projetam a construção
de uma espécie de Anhembi no
Grande ABC. Enquanto não se provar
que o investimento é financeiramente
vantajoso para os investidores que,
como se sabe, não gostam de perder
dinheiro, improvisaremos áreas
aos eventos. A realidade é que,
no campo de grandes negócios
de feiras e exposição,
o Grande ABC sofre com o brilho da Capital
tão próxima, cuja rede
de entretenimento, lazer, hotelaria,
centros de compras e gastronomia é
imbatível no território
brasileiro. Viveremos por muito tempo
na penumbra.
Complexo
de Gata Borralheira
A debilidade institucional do Grande
ABC é a matriz do Complexo de
Gata Borralheira que procurei traduzir
em livro lançado em 2002. Somos
um conjunto de municípios e cidadãos
que sofrem de sentimento de inferioridade
da vizinha e poderosa Capital e, paradoxalmente,
para negar essa redução
de importância, reage com bairrismo,
essa coisa horrorosa de se fechar em
copas, trombetear grandeza mas, no fundo,
no fundo, viver amargurado com a idéia
fixa de que a Capital é sempre
melhor. Os anos 1990 de fundas mudanças
econômicas e sociais no Grande
ABC repercutiram na textura coletiva
a ponto de arremeter a sociedade rumo
a um individualismo de salve-se-quem-puder,
agravando, com isso, a submissão
psicossocial à Capital tão
próxima.
Criminalidade
e ranqueamento
Quem afirma a plenos pulmões
que criminalidade é uma doença
social sem correlação
com comportamento econômico quebra
a cara porque, no caso específico
do Grande ABC, os anos de chumbo do
governo Fernando Henrique Cardoso provocaram
mortes não-acidentais 50% mais
elevadas do que os anos de recuperação
do governo Lula da Silva. Uma série
de medidas colaborou para que o Grande
ABC sufocasse a síndrome de Baixada
Fluminense. Em meados dos anos 1990
apresentamos números alarmantes
de homicídios, que rivalizavam
com aquela região do Rio de Janeiro.
Foram mais de 1,3 mil mortes num mesmo
ano, até que a curva gráfica
refluísse continuamente. No ano
passado morreram 339 pessoas assassinadas
na região, muito abaixo de outras
metrópoles. Por mais que haja
maquiagem em boletins de ocorrência,
como tanto se apregoa, é impossível
esconder números substantivos
de assassinatos. Melhoramos bastante,
mas não se pode ignorar que continuamos
entre os piores endereços das
principais praças do Estado de
São Paulo, conforme LivreMercado
apresenta em ranking do IEME (Instituto
de Estudos Metropolitanos).
O
que esperar da UFABC?
LivreMercado já dedicou muitas
páginas ao questionamento curricular
e institucional da Universidade Federal
do ABC. Lamentavelmente, a sociedade
é omissa, quando deveria pegar
à unha o touro do comprometimento
regional. Fosse reitor da UFABC, como
o foram outros e é o atual, pouco
me importaria com o Grande ABC porque
o que há de fato é um
completo alheamento da sociedade regional.
Fico inconformado quando vejo tanta
mobilização de candidatos
a prefeitos na região, com correligionários
aparecendo em fotos como enxame, e nada,
absolutamente nada fazem quando se trata
do futuro daquela instituição.
Fernando
Henrique versus Lula da Silva
Embora considere o governo Lula da Silva
300 milhões de vezes superior
ao de Fernando Henrique Cardoso no âmbito
nacional, farei de conta que desprezo
completamente essa correlação
em espaço tão amplo e
fico apenas com o território
regional: aqui, a diferença não
é de 300 milhões de vezes,
mas de bilhões de vezes. Foi
principalmente graças à
FHC e à minha paixão pelo
Grande ABC que votei em Lula da Silva
pela primeira vez em 2002; e repeti
a dose em 2006. Já discorri textos
e textos da hecatombe regional sob Fernando
Henrique Cardoso. A impressão
daquele período é que
propositadamente FHC pretendia eliminar
a economia do Grande ABC do mapa nacional
com aquela espécie de bomba atômica.
Nossas pequenas e médias empresas
industriais familiares desaparecem dos
radares por conta de políticas
nacionais e macroeconômicas descoladas
de algo que pudesse ser minimamente
chamado de planejamento.
Administração
Celso Daniel
Mobilizem céus e terras,
vasculhem arquivos, investiguem para
valer e não encontrarão
ninguém que tenha sido prefeito
tão flagrantemente regional quanto
Celso Daniel. Não discuto se
Celso Daniel foi melhor ou pior em aspectos
específicos de administração
pública municipal. Ele pairou
acima de todos por conta da vocação
regionalista, do olhar além do
próprio território, da
contemporaneidade de projetos, do faro
aguçado em direção
ao futuro, da competência em distribuir
e monitorar tarefas, do talento à
descentralização sem deixar-se
corroer pelo ciúme. Celso Daniel
é o Pelé da história
da regionalidade do Grande ABC no âmbito
público. Tivemos vários
craques municipalistas, muitos pernas-de-pau
municipalistas, mas Pelé regionalista,
como Pelé do futebol, apenas
um. Ele.
Compartilhamento
de lideranças
A rotatividade presidencial é
um dos vícios de origem da baixa
produtividade do Clube dos Prefeitos.
A prevalecer esse convite ao individualismo
temporal e frenético de quem
ocupa o comando enquanto os demais refluem,
continuaremos a sofrer com a regionalidade
em frangalhos. A solução
é instalar os prefeitos numa
espécie de Conselho de Administração,
cada qual coordenando um, dois ou três
eixos temáticos compatíveis
com vocações dos respectivos
municípios, e repassar a direção
técnica a especialistas. Com
autonomia, esses experts entrecruzariam
objetivos estratégicos regionais
numa zona de independência de
ações municipalistas.
O drama para aplicar essa equação
é que interesses políticos
e partidários falam mais alto
e os prefeitos, por melhores que sejam
aos respectivos municípios, têm
pouco tempo para parar e acreditar na
viabilidade dessa proposta. Muitas das
dificuldades de saúde, educação,
transporte e meio ambiente, além
de econômicas, que sobressaltam
o Grande ABC têm origem no autarquismo
dos prefeitos.
Melhores
e piores momentos
LivreMercado reúne coleção
respeitável de sucessos editoriais
em 18 anos de circulação.
O caso Celso Daniel é de fato
um desses marcos. Provamos com farta
investigação o quanto
se manipularam situações
completamente distintas, como a vinculação
entre supostas propinas na Prefeitura
de Santo André e o assassinato
do prefeito. O desfilar de imagens de
nossas capas simplifica o entendimento
do vanguardismo nesse período.
A maior conquista da publicação
foi a credibilidade baseada em remar
contra a maré de ufanismo e triunfalismo
de uma região que passou pelos
piores momentos da história nos
anos 1990. Lamentavelmente, erramos
sempre que acreditamos na força
coletiva que praticamente inexiste,
como foi o caso do Fórum da Cidadania.
Coragem
de abordagem
A estridência com que LivreMercado
pauta o compromisso de levar informação
ao público, com enfrentamentos
às vezes barulhentos, é
característica que jamais poderá
abandonar, sob o custo de despersonalizar-se.
Meu temor é que exatamente porque
é espécie de réplica
de minha personalidade profissional,
LivreMercado sofra revés insuperável
na imagem de combatividade diante de
minha ausência. Reconheço:
não sou um exemplar que se enquadra
a um jornalismo dedicado mais a conveniências
e alpinismo social. Manter esse projeto
editorial custa muito caro em termos
de saúde, de relacionamento social
e de dedicação familiar.
Somos um bando de loucos.
Especiais
e o Grande ABC
Têm certa dose de razão
os conselheiros editoriais de LivreMercado
que questionaram contra-senso de a revista
publicar reportagens especiais de municípios
fora do eixo geográfico do Grande
ABC. Visto sob o ângulo estritamente
regional, esses materiais podem, sim,
servir de emulação a novas
incursões de empresas locais
em direção ao Interior
do Estado. Afinal, é visível
o grau de sensibilização
daqueles municípios em relação
ao que oferecemos internamente. O Interior
é muito mais palatável
a investimentos produtivos. O problema
todo se resume a um fato insofismável:
é indispensável buscar
recursos financeiros para suportar o
rebaixamento de investimentos publicitários
no Grande ABC por conta do aniquilamento
da pequena e média empresa, do
distanciamento da maioria das grandes
indústrias da sociedade local
e do canibalismo resultante de excesso
de estabelecimentos comerciais e de
serviços em contraposição
à queda da riqueza.
Fragmentação
do Grande ABC
O processo emancipatório do Grande
ABC em meados do século passado,
subdividindo em sete municípios
o território de 800 quilômetros
quadrados, acrescentou dificuldades
mas também implementou iniciativas
de toda ordem. Somente um debate amplo
com especialistas poderia dirimir dúvidas
sobre os efeitos desse divisionismo.
Em princípio, considero o movimento
emancipacionista deletério para
o Grande ABC do presente. A unidade
física, territorial e política
faria a diferença nestes tempos
em que fronteiras nacionais se diluem
ao sabor do jogo da sobrevivência
na globalização. A União
Européia está aí
para provar, entre tantas outras iniciativas
de gerenciamento em comum de interesses
econômicos. Muitos muros ainda
separam os sete municípios do
Grande ABC, embora o jogo de cena seja
de negar veementemente essa dolorosa
realidade.
Marketing
regional
Um dos erros mais comuns quando se avalia
o Grande ABC é acreditar que
o marketing descasado de insumos básicos
de reorganização institucional
e estrutural salvará a pátria.
Pura bobagem. Chamem os maiores especialistas
no assunto e que tenham senso de preservação,
e duvido que aceitariam participar de
encenação, como algumas
iniciativas que fracassaram no passado.
Marketing não é pó
de pirlimpimpim. Um marketing voltado
para repotencializar a malha produtiva
de autopeças do Grande ABC, por
exemplo, só terá sentido
após diagnóstico das condições
atuais e de um modelo exequível
de convencimento dos empreendedores
no campo fiscal, locacional, tributário
e trabalhista, entre tantos.
Contaminação
do Residencial Ventura
A transformação da área
da desativada fábrica da Atlantis,
em Santo André, em condomínio
habitacional para classe média
é assunto que ainda não
foi tratado por LivreMercado porque
estou reunindo série de informações.
Entretanto, estou resguardado por troca
de e-mails. O que posso adiantar com
a segurança de quem não
faz uso da Lei de Imprensa como escudo
a exageros é que desafio os responsáveis
pelo negócio a procurarem reparos
em qualquer instância, notadamente
o Judiciário. O fato é
que o Residencial Ventura, como é
chamado, se converteu em fraude imobiliária
por conta de laudos comprobatórios
de contaminação do terreno
utilizado durante sete décadas
por aquela empresa química. O
senhor Sérgio De Nadai sabia
o que estava vendendo.
Caso
Celso Daniel versus caso de assédio
Diferentemente do caso de assédio
sexual tratado durante todo o mês
no meu blog e transposto a esta edição
da revista, o caso Celso Daniel dispensou
de repasse deliberativo o Conselho Editorial.
No caso Celso Daniel trabalhei com fatos,
com informações, com reportagem
propriamente dita, para assegurar que
as investigações policiais
foram corretas. No caso de assédio,
temos componente complicador porque
envolve comportamento de ordem moral.
A prerrogativa de chamar o Conselho
Editorial é deste jornalista.
Sempre que houver necessidade de participação
do Conselho, registraremos o resultado
da decisão coletiva.
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Transposição
partidária
Jamais me imaginei em cargo público
eletivo. Sou deselegante e mal-educado
o suficiente para não demonstrar
apreço por quem não
tenho apreço, para não
abraçar quem não respeito,
para não trair a confiança
de quem me faz depositário
de informações, para
não baixar a cabeça
quando meu desejo é de chutar
o pau da barraca, para não
passar por cima de ninguém
só para garantir vantagens
escusas, para não fazer papel
de personagem. Não que todos
os homens públicos sejam
exatamente isso durante todo o tempo,
mas em algum momento eles precisam
ser assim. A ética na política
é flexível demais
para os ensinamentos que recebi
de meus pais. Estou feliz com o
papel modesto que desempenho na
sociedade regional. Admito um dia
qualquer transformar-me, quem sabe,
numa espécie de consultor.
O jornalismo, quando exercitado
com devoção, abre
muitas portas de conhecimentos que
poderiam ser transpostos além-fronteiras
midiáticas. |
Explicações
sobre o poderoso chefão
O empresário Ronan Maria Pinto
é o poderoso chefão do
Diário do Grande ABC assim como
os Marinhos são os poderosos
chefões nas Organizações
Globo, os Mesquitas o foram no Estadão
e os Frias o são na Folha de
S.Paulo. A diferença é
que Ronan Maria Pinto não é
do ramo. E isso faz muita diferença.
Ele jamais conseguirá compreender
o significado jornalístico do
que o Diário do Grande ABC imprime
a cada novo dia, por mais que pense
que entenderá. Não se
trata de crítica, mas de constatação.
Da mesma forma que teria este jornalista
dificuldades em entender o setor de
transporte coletivo, no qual Ronan Maria
Pinto é especialista. A diferença
entre uma atividade e outra é
igualmente entre um motorista de ônibus
e um jornalista: a dificuldade de atingir
rapidamente nível de competência
e excelência será sempre
maior para o motorista, porque jornalista
lida com conhecimento intangível
que, como se sabe, não tem limites.
Tudo isso, entretanto, dentro da nova
realidade da mídia internacional,
não se traduz em fracasso mercantil
de um dono de ônibus que ingressa
na área editorial, assim como
não o seria para investidores
financeiros que jamais tiveram qualquer
intimidade com os jornais, exceto como
leitores, e que decidiram invadir a
área da Imprensa mundial. Em
realidade, investidores sabem ganhar
dinheiro, mesmo que à custa de
produtos pragmáticos demais para
meu gosto de leitor e jornalista.
Direitismo
versus esquerdismo
Quem tentar decifrar ideologia estanque
neste jornalista provavelmente vai cair
do cavalo. Não me prendo a clichês
nem sou escravo de regras que tipificam
esquerdistas e direitistas como seres
indelevelmente imutáveis. Só
os fundamentalistas não mudam
ou pelo menos não procuram ajeitar-se
sem constrangimento interior. Garantidamente
sou regionalista com olhos postos no
mundo, sofro com os conservadores que
só olham para o próprio
umbigo e com os revolucionários
de causas insensatas. O futuro da humanidade,
se a humanidade tiver futuro, será
o capitalismo social ou o socialismo
capitalista, do qual o Brasil está
estratosfericamente longe. E desconfiem
de falsos filantropos porque, além
de manipuladores, eles minimizam a importância
de quem faz de fato da solidariedade
profissão de fé, como
tanta gente abnegada que conheço
na região, tanto Madres Terezas
como mulheres maravilhosas de classes
privilegiadas.
Resultados
de uma sociedade
Sobremodo porque a relação
acionária coincidiu com desarranjos
diretivos do Diário do Grande
ABC, situação que atingiu
e ainda atinge duramente aquela empresa,
a sociedade que acertamos há
11 anos ficou distante do que imaginavam
as partes. Particularmente para a Editora
Livre Mercado foi um desastre. Sempre
foi tormentoso e inútil encontrar
uma brecha de atenção
dos acionistas majoritários,
porque o tiroteio entre eles se prolongou
por muito tempo e fez muitos estragos.
Ficamos de fato na linha de tiro. Felizmente,
o produto LivreMercado não foi
atingido nem de raspão no cerne
com que foi concebido, ou seja, na linha
editorial independente da Rua Catequese
e de outros endereços mais ou
menos nobres da região.
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